Meu caro amigo Ramos, me responda, por favor.

Ternontontem, o poeta Ramos Sobrinho escreveu pra mim. Havia ali uma frase simples, no meio do email. Mas seria ela a me dar a direção de volta à Casa Tomada. A meu ver, aquela frase é a melhor definição do sentimento do homem contemporâneo: “Ando meio fora do corpo”, dizia.

O Ramos não estava definindo nada — ele é antropólogo, até poderia. Só estava se queixando duma gripe pré-carnavalesca. Aviária, talvez, pois não é pelo fato de essa praga ter saído dos noticiários que não continue grassando por aí. Aguardem e verão quantas andorinhas. Meu romance novo fala disso. Aliás, meu romance novo nem sequer é mais novo e temo, quando leiam, dizerem sequer ser um romance. Se Samuel quiser gastar mais grana, sai junto com o livro de contos. Meu mundo combomix.

Esse Claro-escuro já nasce com todos os dentes caninos. Mas quanto a Ramos 1:1, já li demais Sobre a psicopatologia da vida cotidiana, do Sigmund, para entender que onde há fogo, há fogo mesmo. Assim, vou usar de prerrogativas retiradas da goela dum crente da praça, para destacar só o versículo, e nunca o contexto.

Eu também ando meio fora do corpo, Ramos. Não falo nem nas viagens astrais onde eu, Manel, Lupeu, sonhávamos ter (e tínhamos à vera) lendo Hermann Hesse ou Lobsang Rampa, nos nossos nada inocentes dezesseis anos, os nossos cordões de luz azul saindo do umbigo e ligando a gente à gente mesmo, rodopiando no teto do bar.

Nem falo das fugas do corpo lendo Aldous Huxley e Carlos Castañeda, um pouco depois — sem mescalina, acreditem [e isso tornava tudo mais estranho ainda]. Bom ou ruim, depois descobrimos Tchecov, Dostoievski, os russos mais ruços, e daí paramos por um tempo com aquela viadagem — digo, vadiagem — ectoplasmática.

Bem, ando editando livros espíritas, alguns sabem, mas não se tratava de um Kardec tour first class nem duma Chico Xavier trip back to home, ou ainda de virarmos um daqueles anjos de gás, de Biafra: “voar, voar, subir, subir…”
Talvez, naquele tempo, sair do corpo significasse um pouco sair do Juazeiro, ou cessar aquele estado pustulento de adolescência demorosa de passar. Ou permanecer ali naquele transe que era a vida de verdade. “A vida é sonho”, gritava de lá Calderón de La Barca.

Mas era ali onde nossos corpos inflados ancoravam. E tudo se resumia a ler o máximo de livros possível, escrever, transar e morrer, forma usual e, por sinal, já manjada de sair do corpo de vez definitiva.

Ou ficar grudado ao esqueleto para sempre até um dia qualquer, bye bye so long very well, como dizia outro hit dos anos 80, porque tudo depende da crença do judeu-cristão, e há muitas varianças de credo nesse universo-mundo.

Hoje, eu não sei quantas vezes meus amigos saem do corpo por dia. Por quinzena. Ou se só sairão quando as crianças saírem de férias. Ah, lemos também muitas vezes o revolucionário Método Silva de Controle da Mente, hoje facilmente superado pelo Método Anderson Silva de dar porrada, ou o Método Lula da Silva de fazer política, mas tudo aquilo nos habilitou a outras peripécias da alma e do corpo, usando ou não as mãos. Eh, lemos monografias rosacruzes furtadas das velhas tias, O néctar da devoção, tudo de Madame Blavastky. Rapaz, queríamos mesmo largar este lugar.

Então, acredito algum de nós ter conseguido.

Eu, caro Ramos, confesso: fracassei. Hoje, vivo também “meio” fora do corpo. Não alcanço as melhores coisas ali dentro. Não ambiciono a maioria das coisas aqui de fora. Leio os livros hoje e eles não são melhores. Nem mesmo quando releio os livros antigos eles são mais envolventes e invioláveis quanto eram antes. Os amigos, caso adquira algum daqui pra frente, (só os tenho perdido, por teimas bobas ou por viagens inesperadas), não serão melhores que os meus velhos amigos de sempre. Desse modo, eu estou vivendo num outro corpo, Ramos. Ou num outro mundo. Mas não era bem essa viagem para a qual treinei tanto.

Lacan diz não termos um corpo. E que o nosso corpo é um objeto absolutamente estranho a nós mesmos. (Ok, Lacan, eu não tenho um corpo, mas aquilo que carrega o espírito atormentado do jogador da Itália Mario Balotelli é o quê?!) Sou insuficiente, e me sujeito a mim em meu corpo estranho. Isso me leva direto a Dalto e um outro sucesso daqueles old times das madrugadas da rádio Caetés. Ou a “Sei que é sonho / incomodado estou / num corpo estranho”, como na canção, já dos anos 90, Chico, não o de Uberaba, mas aquele, do irmão alemão.

O fato, Ramos, meu caro amigo, é que as fichas da radiola acabaram com a radiola. Que fatalidade.

Sidney Rocha

É autor dos livros Sofia, O destino das metáforas e Matriuska, todos editados pela Iluminuras.

1 Comentário

  1. Ramos Sobrinho

    E um lanche de dardos jamais abolirá o ocaso.

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