Um carnaval sem Momo

 

Tenho este pesadelo todos os anos.
As avenidas vazias. Uma criança atravessa a quadra da Portela com apito na boca.
Tudo é silêncio e solidão.
O Carnaval está morto.
Nas ruas do Recife, o Galo da Madrugada não sai e nem sequer uma sombrinha de frevo ameaça o sol.
As ladeiras de Olinda são retiros espirituais. Nada de som dos clarins de Momo.
O povo não aclama, não ferve.
Morto o Carnaval.
Tremo. O cenário no sambódromo é o deserto de Mad Max, quando Mel Gibson nem sonhava ser Cristo.
Arames farpados, trincheiras, tempestades, o assobio cortante do vento nas ruas desertas de Salvador.
Pichações como “Carlinhos Brown vive” e “Beto Jamaica voltará” são de partir o coração, soteropolitano ou não.
A Praça Castro Alves parece um verão branco e quente no filme Nosso lar.
Estou suando.
E agora? Tudo terá de começar mesmo em janeiro? Como na Dinamarca? Assim como era no princípio, agora e sempre, e por todos os séculos dos séculos, amém? Meu Deus, é o fim, é o fim. Acabou-se o Brasil.
Sobrará pelo menos meu Ceará, o Clube do Treze Campestre das inocentes lolós, aquele 82 ao som de Pernambuco eu te quero/ não me deixes maluco?
Nessa hora, o apito do menino da Portela liberta estridente pio de coruja rasgando o sonho em dois lúgubres abadás.
Contudo, da mais profunda Paraíba, o alegríssimo Augusto dos Anjos alivia o tom:
“Qualquer festa em que Momo se intrometa/ Brônzeo, quebrando o ramerrão frequente,/ Possui, possui incontestavelmente / Necessidade duma borboleta”.

 

Em 1894, as autoridades viram necessidade não de esvoaçantes lepidópteras, mas de dura lei proibindo o Carnaval. Pode? Machado de Assis voou em cima, com não-sei-quantas Capitus fervendo:
“É crença minha que, no dia em que deus Momo for de todo exilado deste mundo, o mundo acaba”.
Como não se pode acabar com o Carnaval sem acabar com a quaresma, e isso significa fechar o Mercado do Peixe em Juazeiro do Norte, Jesus terminou por salvar Momo.
Melhor assim: se a lei pega, seria um pesadelo dentro do pesadelo: como iríamos ler Carnaval, de Manuel Bandeira? O país do Carnaval, de Jorge Amado? E a peça Orfeu da Conceição, de Vinicius? É, a literatura seria uma quarta-feira ingrata.
Graciliano Ramos não concorda. Tem o direito.
“Estamos livres dos truculentos cordões a vociferar quadrinhas sem pé nem cabeça”, disse, atacando os grupos psiricos, parangolés, sangalos, timbaladas, chicabanas e, vejam só, seeways do tempo dele.
“Até aí a índole nacional se revela – juntar palavras sem sentido”.
Nessa hora, o Bruxo entrou pela nuvem do comercial da Caixa e Graciliano apertou mais ainda:
“Se a coisa é para fazer tolices, fazei tolices, amigos, quebrai a louça, derramai os copos, põe uma barba de espanador [ele não disse onde] e sai pela rua a dar vivas à República”.
Angústia. Por ele, estava morto e enterrado o Carnaval.
“A alegria é a alma da vida”, gritou Machado, mas Graciliano nem-nem.
Eu já estava de pé.
Que deem seus pulinhos, que brinquem no ar, douradas borboletas.
“Se não der o peixe, pelo menos deixe a pessoa pular, se alegrar”, me diria dona Idelzuite, no box 30 do mercado, sorrindo e embrulhando o robalo.
É isso: a alegria sempre vale o peixe.

Sidney Rocha

É autor dos livros Sofia, O destino das metáforas e Matriuska, todos editados pela Iluminuras.