Edward Hopper à beira-mar

Edward HopperPNG - Meio-dia (1949)

Os quadros de Edward Hopper têm a tendência de esvaziar-se, ou seja, “o tema da multidão apinhada num dado lugar desaparece completamente da sua obra”, lembra o crítico Ivo Kranzfelder.

Hopper

Essa casa (ver foto acima), numa movimentada praia de Florianópolis, bem poderia ser a de um quadro de Hopper. No meio do burburinho animado na areia apinhada de brasileiros, argentinos e uruguaios jogando frescobol e tomando caipirinha, a casa permanece lá, isolada, desabitada, como se estivesse num mundo à parte, ou talvez num subúrbio norte-americano que Hopper tanto gostava de retratar.

De fato, raramente vejo alguém naquela casa; e quando vejo ali alguma figura humana, ela está como que na “sua própria constelação”, para usar a expressão de Kranzfelder, ou seja, isolada e solitária como os seres humanos retratados por Hopper.

Nessa casa, os humanos ganham um aspecto artificial, como se não vissem ou desprezassem completamente o movimento nas areias da praia. Não tirei nenhuma foto da casa habitada, mas Meio-dia (1949), de Hopper, bem poderia ilustrar o que pretendo dizer.

Edward Hopper - Meio-dia (1949)

 

Vejo essa casa à beira-mar sempre de uma perspectiva inclinada para cima (é claro, eu estou na areia, e a casa num terreno um pouco elevado), com sua base suspensa no ar, como se ela estivesse flutuando, o que me causa uma certa desorientação. Sabe-se que Hopper gostava de explorar essas perspectivas em seus quadros para lhes dar um aspecto quimérico. Esse aspecto quimérico, aliás, me faz muitas vezes ter medo de passar pela tal casa, pois sempre acho que dela surgirá uma figura estranha que me abduzirá para um outro mundo, o seu mundo desoladamente feérico.

As perspectivas de Hopper são tão estranhas e às vezes tão assustadoras que não é à toa que Alfred Hitchcock tenha usado a técnica do artista no seu filme Psicose.

As paredes dessa casa à beira-mar são levemente esverdeadas, confundindo-se com a vegetação que a cerca; e o telhado, as janelas e as portas são brancos, confundindo-se com as nuvens e com a areia. Hopper também fazia a natureza se confundir com as obras de criação do homem, como se entre elas não houvesse nenhuma relação de hierarquia.

Agora, que a meia-estação se aproxima, uma luz artificial, típica do sul do país, iluminará a casa e fará com que ela fique ainda mais parecida com as das obras de Hopper. A nova luz de outono vai lhe dar um aspecto kitsch, o mesmo que como dizem alguns críticos, têm nas telas de Hopper.

Mas, nos meus passeios à beira-mar, não vejo apenas esse Hopper; olhando as montanhas e os barcos ao longe (tenho o que se chama de “vista cansada”), vejo uma série de formas geométricas à moda de Paul Cézanne: para mim, um campo não passa de um retângulo verde, uma grande rocha não passa de um círculo ou uma bola, …

Não posso me queixar de morar fora do eixo Rio-São Paulo, diante da galeria que tenho à minha disposição e bem na frente do mar. E olha que nem contei a minha experiência com Happy Days, de Beckett, encenada por um brasileiro enterrado até o pescoço em plena areia da praia de Cachoeira do Bom Jesus.

Dirce Waltrick Do Amarante

Publicou livros como Cenas do teatro moderno e contemporâneo, Pequena biblioteca para crianças e As antenas do caracol.