Não corra ao volante, você pode atropelar Roland Barthes

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Desde já considerado o livro do Centenário Roland Barthes, cujas comemorações mal começaram, neste ano de 2015, acaba de sair na França mais uma biografia do autor, a terceira até agora.[1] Por motivos compreensíveis – já que a biógrafa não conheceu Barthes e escreve à distância dos acontecimentos – trata-se daquela que mais revolve arquivos. Trata-se também da mais extensa: 715 páginas. E da única dotada de iconografia, que, aliás, vem acrescentar-se com proveito a um álbum de família que julgávamos exaurido, desde que Barthes, na defesa da pesquisa não isenta de afetividade, e no encalço inevitável de Sartre, passou a assumir-se como sujeito plenamente existencial e a exibir certas fotos suas ao lado da mãe, senão no colo dela.

Ficcionista e ensaísta, além de professora universitária – o que faz com que seu texto tenha esta coisa rara em trabalhos acadêmicos: uma voz – Tiphaine Samoyault começa pela absurda morte de Barthes, em março de 1980, por atropelamento, numa calma rua do Quartier Latin, bem na frente do Colégio de França, onde ele “sonhava alto sua pesquisa”. Há uma estátua de Montaigne, o primeiro dos ensaístas e o modelo de todos eles, no jardim do Colégio, que dá para essa mesma rua, a Rue des Écoles. A ironia é que Barthes é Montaigne, quatrocentos anos mais tarde, como hoje vamos descobrindo, depois que caiu por terra a suspeita de que seria um diletante: o mesmo sujeito ensimesmado, melancolizado, autoexilado dos Ensaios, às voltas com o mesmo sentimento de que as palavras são vento, segundo a bela lição de Mitologias, onde lemos que o “mito” distende infinitamente significados.

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Todos os cultores de Barthes sabem da importância que, em sua demonstração das propriedades de desdobramento retórico dos signos verbais, ele dá à imagem que não se revela completamente, a elusiva, a que desafia o sentido. Em A Câmara clara, seu derradeiro livro, essa representação desafiadora é aquela fotografia que “parte da cena, como uma flecha, e vem me transpassar”. Sensível a tudo o que escapa do constrangimento da língua, que impõe seus paradigmas e “obriga a dizer”, ele reencontra esse tipo de imagem até mesmo naquelas máscaras da indústria cultural que, antes da inflexão Barthes, costumávamos despachar rapidamente para o limbo dos fetiches e dos simulacros, lugar que lhes era designado pelos sociólogos marxistas “piedosos”. Veja-se este trecho desnorteantemente bem escrito de Mitologias a respeito de duas delas, não apenas midiáticas, mas holywoodianas: “Mesmo em toda a sua extrema beleza, essa face [de Garbo], que não é desenhada, mas antes esculpida numa matéria lisa e esfarelável, o que quer dizer que é simultaneamente perfeita e efêmera, aproxima-se da de Carlitos, dos seus olhos de vegetal sombrio, de seu rosto de tótem”.

Dos documentos visuais trazidos às páginas deste novo Roland Barthes, um é tão perturbador quanto. Por coincidência, é o primeiro do livro.  Surge no final do prólogo _ que narra o acidente de março de 1980, fazendo a história da vida de Barthes começar pelo fim _ na altura da página 29. Trata-se de uma fotografia tipicamente urbana, que registra uma pichação. Ficamos sabendo pelos créditos em apêndice à biografia que ela é assinada por um repórter fotográfico chamado Alain Dodeler. Mostra um muro de um imóvel, não se sabe se público ou privado, talvez parisiense, sobre o qual alguém escreveu: “Roulez moins vite, vous pourriez écraser Roland Barthes” (literalmente: vá mais devagar, você poderia esmagar Roland Barthes). Ilegível e descorado pelo tempo, um lambe-lambe publicitário foi colado em cima desses dizeres, sobreconstruindo o mural.

O espetáculo desse muro da cidade que, como se dizia em Maio de 1968 , “tomou a palavra”, é de muitos modos nonsense, quer dizer, aberto ao “terceiro sentido”, para aqui referirmos outro conceito barthesiano conhecido. De um lado, dirige-se ao passante comum, que certamente não leu A Câmara clara nem os Fragmentos de um Discurso amoroso e não pode saber do que se está falando ou o que está mesmo acontecendo. De outro, alerta para uma catástrofe que já aconteceu. Não bastasse, deixa-se interromper ou complicar por uma inscrição intrusa.

Havia palavras de ordem por toda parte, sobre os muros de Paris, em Maio de 1968. Ceticista à la Montaigne, Barthes viu-as como arrogantes ou como formas de jactância, mesmo quando anarquistas, e mudou-se, por uns tempos, para o Marrocos, quando começaram a ser disseminadas pela cidade arregimentada, sendo este um de seus célebres episódios de “dépaysement” – como diria Baudelaire, convidando-nos à viagem – narrados por Tiphaine, agora com riqueza de detalhes. Voltando à pichação: a primeira peça iconográfica da nova biografia é tão mais feliz quanto se furta completamente a qualquer chamamento preciso, daqueles alvejados pelo “grau zero”, que equivale a “terceiro sentido” e sinaliza a pura poesia. É um começo e tanto para um volume a descobrir.

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[1] – Tiphaine Samoyault, Roland Barthes, Seuil, Col. Biographies, 2015.

Leda Tenório Da Motta

É autora da editora Iluminuras. Publicou Catedral em Obras, Francis Ponge – O objeto em jogo e Roland Barthes: uma biografia intelectual.