Um olhar para o céu, um olhar para o chão

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Cauda de maré. Esse é o nome que os astrônomos dão para a espuma luminosa que fica desenhada no espaço depois que forças gravitacionais de duas ou mais galáxias interagem. Um desses rastros, de um encontro acontecido há bilhões de anos entre a galáxia de Andrômeda e a galáxia do Triângulo, foi visto do Observatório de Westerbork, no norte da Holanda, em 2004.

Um olhar para o céu, um olhar para o chão, ambos dão em estrelas em Westerbork, por isso uma cauda de maré pode ajudar na arqueologia do lugar, essa espuma luminosa do tempo, como as lascas de tempo nas cascas de bétula que Didi-Huberman trouxe de Birkenau.

De 1942 a 1945, Westerbork funcionou como um campo de trânsito, de onde partiram mais de 90 trens e 100 mil pessoas para os campos de concentração do Leste. Antes dos nazistas, foi um centro de refugiados, depois dos nazistas, um abrigo de imigrantes. O Observatório inaugurado em 1970 como que reabilitou para o presente o nome do campo, que é também o nome de um vilarejo próximo, um povoado vivo de Assen.

Quem desce na estação de trem de Assen e procura um ônibus para Westerbork pode se enganar e acabar no vilarejo dos vivos. Para chegar ao campo, vindo de ônibus, é preciso saltar no meio do caminho e cruzar a estrada numa longa reta seguindo as placas. Fazer esse percurso a pé é um modo de olhar. O museu, por sua vez, fica na metade do caminho para quem quer chegar ao memorial, o lugar onde antigamente se erguiam os barracões, hoje um horizonte limpo ao lado de 12 radiotelescópios gigantes.

Nos anos de 1940, Westerbork não tinha árvores. Agora existe o bosque. Alguém pode escolher pegar uma van ou seguir a pé o caminho asfaltado do museu até o campo. Ou pode ir por uma trilha do bosque. Ir pelo bosque é um modo de olhar. A trilha guarda surpresas, marcos, pontos de parada seguindo a ordem dos planetas do sistema solar. Alguém vai de planeta em planeta até o sol. Depois do bosque, aparecem os telescópios de Westerbork.

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A entrada do campo que dá no memorial é o fim da caminhada, ou quase. As informações sobre o campo, no campo, são praticamente imperceptíveis, o que exige explorar o chão, caminhar mais para olhar melhor e olhar melhor para ver o que de longe parece inexistente. Não sobrou nada dos velhos barracões. Uma janela absurda no meio do verde e pedaços recortados de muro estão lá onde existiam as barracas, mas são intervenções que mal se sentem, cujo efeito para quem olha é o de construções que continuam e se completam invisivelmente. Números no chão indicam o antigo local de cada barraca. A torre de vigia também está lá, discreta. A garganta seca de uma vala e o alambrado, discretos. O memorial com 102 mil estrelas e flamas no chão, discreto. Em Westerbork nada é tão poderoso quanto o céu. O céu ali engole tudo, o céu impera. É também isso que dizem os telescópios

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A “museificação dos acontecimentos históricos” que Didi-Huberman problematizou em seu ensaio sobre Auschwitz – Birkenau, essa apropriação ostensiva de um lugar de barbárie pela indústria da cultura, é evitada ao máximo em Westerbork. Se nada dificulta o fluxo turístico, também nada o favorece. Os visitantes contam-se nos dedos. As placas e legendas estão todas em holandês, sem tradução. Chegar até o museu, depois ao campo, depois voltar do campo para a estação de Assen, não é sem esforço, pelo contrário, é quase tão difícil quanto chegar ao campo de Armesfoort. É preciso desejar muito estar lá.

Mesmo dentro do museu, a história é mais sugerida do que exposta. Quem quiser saber mais sobre o lugar deve buscar fora dali, é a mensagem implícita na discrição desse recanto de cultura. Em 2013, numa das salas do museu, havia uma exposição de fotos de Sake Elsinga com imagens da inauguração do memorial, retratos dos sobreviventes que voltaram para visitar o campo, crianças, músicos, autoridades que estiveram ali desde os anos de 1980. Entre as imagens da exposição, aparece a velha casa do comandante, uma das únicas construções da época da guerra ainda em pé. Sake Elsinga fotografa a casa por dentro melancolicamente deteriorada.

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Nem o rosto familiar de Anne Frank se destaca do anonimato geral dos mais de 100 mil que passaram por Westerbork. O rosto de criança mais famoso de Westerbork não é o de Anne Frank, é o de Settela Steinbach, uma ciganinha. E Settela apenas dá nome a uma força anônima e unânime, com suas reservas, suas reticências, seus indícios sutis de história exigindo olhar mais uma vez, olhar melhor, com mais interesse.

Os espaços vazios, as lacunas propositais, o não assédio ao indizível dos acontecimentos mantêm aberto esse lugar de passagem. Ao ar livre, duas lágrimas de vidro dão forma a essa invisibilidade, um horizonte se oferece através delas até o limite verde das árvores. Os contornos da história, ali, dentro do museu, são como essas lágrimas do outro lado da janela, uma chance de ver as coisas através de formas de transparência.

As cascas de árvore ou as pinhas do bosque são recentes, não têm memória igual à das bétulas de Birkenau. Olhar de um ponto de vista arqueológico para Westerbork é ver estrelas. A poesia disso fica sendo incidental, que, de fato, cientificamente, existe isso que se chama cauda de maré, isso que fala do passado numa espuma luminosa. Para ver Westerbork em Westerbork, entre o vilarejo dos vivos e os telescópios, alguém transita por lacunas de longas distâncias. Hoje este é um lugar para astrônomos, uma planura a conversar com o universo, e são de prata as estrelas no chão, e há uma criança ao lado dos pais, andando pelo memorial do campo numa tarde de quarta-feira, com pernas ainda desatentas do versículo de um salmo numa pedra.

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Mariana Ianelli

É poeta, ensaísta e crítica literária. Publicou, entre outros, os livros Fazer Silêncio, Amáldena e Treva Alvorada.