Malícia Estética

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Três de meus livros editados pela Iluminuras, um ensaio (O gosto, de Montesquieu) e dois romances (Niemeyer; O homem que vive, têm capas inspiradas em obras da artista Regina Silveira,). Um quarto, outro romance, História natural da ditadura, igualmente publicado pela lluminuras, tem capa baseada em desenho de León Ferrari pertencente à mesma família, como se diz, da arte de Regina Silveira.

O que as quatro capas têm em comum é o princípio da malícia estética, tal como Schlegel o definiu e do modo como o entendo. Numa primeira perspectiva, a malícia estética revela-se, exemplarmente, na arte de Marcel Duchamp – como no urinol masculino oficialmente intitulado Fonte e ficticiamente assinado por R. Mutt ou na roda de bicicleta plantada de ponta-cabeça num banquinho de madeira. A malícia estética é aí evidente, não? Duchamp estava assumindo um discurso artístico malicioso contra a arte, estava sendo malicioso com a arte. “Isso é arte?” A resposta dele, que ele nunca deu, foi “É” – e, ao dá-la, quer dizer, ao oferecer sua obra para exposição, Duchamp corroía os princípios da arte, assim como a malícia corrompe a inocência e a ingenuidade e a crendice e franqueza e a sinceridade e a honestidade – ou pelo menos se supõe que é isso que a malícia faz. A própria malícia é, ela mesma, maliciosa; como convém, pode significar uma coisa e seu oposto: malícia, cuja existência é registrada desde o século 13, é a aptidão (ou, reparem; a inclinação – Duchamp tinha a inclinação da malícia) para fazer o mal; a malícia é uma malignidade, um ardil, uma astúcia, uma esperteza. Mas, existe uma malícia “no bom sentido”, essa ideia horrorosa à qual se recorre toda vez que o falante teme infringir uma regra do politicamente correto: malícia, no bom sentido claro, é também, convencionou-se, a atitude graciosa, agradavelmente marota: “Vejam que adorável criancinha maliciosa…”.

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Desenho de León Ferrari, utilizado na capa de “História natural da ditadura”.

Mas, sem dúvida, malícia é acima de tudo a fala maldosa, a alusão perversa, a insinuação atrevida, a zombaria, a intenção satírica. Não era isso que visava Duchamp? Sem dúvida. Malícia é artimanha, armadilha: “Vejam, esse urinol não é uma obra de arte, é uma obra utilitária, tem função específica e definida. Portanto, não é obra de arte. Mas eu a coloco numa situação de arte e assim ela se transforma em arte.” A malícia é um catch-22, ardil-22, pegadinha-22, essa situação de impasse criada por Joseph Heller em seu romance homônimo em seguida levada à fama pelo filme igualmente de mesmo título. Catch-22 é a situação paradoxal à qual uma pessoa não consegue se furtar em razão de regras absurdas e contraditórias que a sufocam. Uma pessoa submetida a um catch-22 não tem qualquer controle sobre sua situação e muito menos sobre o próprio catch-22 – não tem saída porque, antes de mais nada, lutar contra ele é submeter-se a ele. Esse catch oculta o fato de que regras arbitrárias são criadas para ocultar o abuso de poder de quem as criou. No romance e no filme, um personagem, piloto de avião de caça em combate, quer dar baixa do serviço militar enquanto está vivo: um piloto de caça naquele momento “durava” não mais do que umas poucas missões, como ele logo descobriu. Mas as duas únicas justificativas para pedir a baixa eram ou um ferimento grave e sem tratamento ou a insanidade mental. O personagem não fora ainda ferido, só poderia alegar insanidade mental. Quando o faz, porém, quando tenta demonstrar a insanidade mental que o acometeria, ouve das autoridades, como resposta que, pra começo de conversa só uma pessoa insana teria se alistado para aquela função e, portanto, não poderia agora alegar insanidade mental para ver-se livre dela… Culpado por ter cão e por não ter cão.

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Obra de Regina Silveira, utilizada na capa de “O homem que vive”.

Marcel Duchamp criou uma regra arbitrária dentro do grande universo arbitrário da arte para disfarçar o próprio poder imenso (e aparentemente inapelável) de que se revestiu. A malícia em sua atitude é evidente. E sobre essa malícia, outras se acrescentam: por exemplo, a roda de bicicleta enfiada de ponta-cabeça num banquinho deveria estar sempre girando diante das pessoas porque foi assim que Duchamp a viu e concebeu; mas, num museu a roda está sempre imóvel, talvez porque o curador não saiba que ela deveria estar sempre girando, talvez porque o museu não permita que ela gire para evitar desgaste da obra de arte (o museu perfeito é aquele em que as peças são conservadas perfeitamente – só que isso é ser malicioso com a arte uma vez que também a arte existe para ser gasta, consumida…), talvez porque o museu não tenha pessoal suficiente para ficar girando a roda todas as vezes em que ela se detém e também porque se alguém vir um funcionário acelerando a roda pode querer fazer o mesmo e os problemas aparecem — e é por isso que descrevo os museus como sendo de fato, com frequência, o cemitério da arte: a arte que é ali mostrada é uma arte morta, em nada igual àquela que um dia foi, no mínimo uma arte apequenada… À malícia original do artista Duchamp foi agregada uma nova malícia – só que a malícia do artista era criativa e a segunda, burocrática, restritiva, reacionária e destrutiva…

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Obra de Regina Silveira, utilizada na capa de “Niemeyer: um romance”.

Regina Silveira põe com frequência, se não sempre, a malícia em ação. As pessoas vistas na capa de Niemeyer estão nas ruas, mas dentro de caixas que as encerram em compartimentos estanques; numa exposição no CCBB de São Paulo, depois reformulada para a estufa do Parque do Retiro em Madri, a artista tirou fotos de claraboias perfeitas e as desmontou e embaralhou para dar a impressão de que estavam estilhaçadas, como se vê na capa de O homem que vive. As normas da harmonia clássica pediam que a forma, a ordem e o ritmo fossem logrados e mantidos, como na Mona Lisa; a destruição da harmonia, como praticada por Regina Silveira, promove a malícia estética. E as “cartas” escritas e desenhadas à mão por León Ferrari, das quais uma é parcialmente reproduzida na capa de História natural da ditadura, praticam a malícia estética porque são lindas formalmente embora não entreguem o sentido de cada uma de suas palavras a não ser de maneira extremamente árdua – e quase nunca entregam esse sentido, ponto final, ainda que cada uma das palavras escritas distorcidamente tenha um sentido perfeito em si mesmo. Malícia estética.

Mas, malícia estética não é apenas isso: malícia estética, sugeriu Schlegel, é o belo racional, é abrir espaço para o belo racional. O belo não deveria ser um caso do racional. É um caso da relação da consciência com o mundo, em seus três modos, mas não um caso do modo racional: a razão está num canto, em outro a emoção e a intuição que conduzem ao belo e, entre ambos, a prática concreta que cria o belo material e lhe dá realidade. O belo racional de Regina Silveira ou León Ferrari é uma espécie do catch-22. James Joyce não usou nenhuma dessas palavras para dizer mais ou menos a mesma coisa. Escreveu numa carta que os problemas das pessoas e nas relações entre as pessoas, assim como na interpretação do mundo, provinha do romantismo e da atitude romântica diante do mundo; e que, na arte da pintura por exemplo (estou tomando uns atalhos), a melhor pintura era a pintura de uma ideia. Ele dizia praticar uma literatura ultra-objetiva e objetivada, daí seu desgosto pelo romantismo, domínio do subjetivismo imperador. Bem, Beethoven é um compositor romântico e magnífico. Por outro lado, a pintura no ocidente sempre foi uma pintura de ideias, cada pintura foi sempre a pintura de uma ideia e isso muito antes do conceitualismo: Mona Lisa é uma pintura de ideias e o que Monet e Manet e Turner e Picasso faziam era pintura de ideias. De modo que não se sabe muito bem o que Joyce queria dizer. Mas, tudo bem: dá para entender, Joyce punha em cena o belo racional, não o belo emocional, nem o belo psicológico ou belo metafísico: o belo racional.

Assim, as quatro capas que mencionei são casos do belo racional e por isso, visto na perspectiva histórica, casos de malícia estética.

Restaria saber se são apropriadas aos conteúdos cobertos por essas capas. Claro, não posso dizer que esses livros sejam casos do belo racional, a modéstia impediria a todo autor dizer isso da própria obra. Mas posso dizer que esses conteúdos são casos de malícia estética. Quanto a isso não tenho dúvida. As capas, portanto, são apropriadas…

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Teixeira Coelho

É autor de O homem que vive, Guerras culturais, História natural da ditadura (pelo qual ganhou o prêmio Portugal-Telecom em 2007), entre outros.