Viagens Mexicanas

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Em maio de 1955, Erico Verissimo e Mafalda tomaram o trem na estação de El Paso, no Texas, rumo à cidade mexicana de Juárez. Começa aí a pintura de um mural mágico.

No “México” de Erico misturam-se civilizações como no ar um cheiro de cebola, fumo de palha e especiarias. Erico percebe as coisas todas mestiçadas. Saltam analogias entre os mariachis e os violeiros do Nordeste, pueblitos e cidades árabes, a pomba cristã e o quetzal.

Um dia, pelas ruelas de Taxco, Erico revê as ruelas de Ouro Preto. Na capela do Rosário, em Puebla, ele pensa na igreja de São Francisco em Salvador. Num domingo, no parque de Chapultepec, acontece diante dele um quadro de Brueghel.

Um povo existe com tragédia, sina de revolução e festa no México de Erico, um México pré-cortesiano, colonial, barroco, mourisco, moderno, mágico, cristão dos cristos indianizados e dos anjinhos de pele morena como os querubins mulatos do mestre Ataíde.

Onde estamos? O viajante, ele não sabe. Em que século, precisamente? Ele não sabe. Entre relíquias e ruínas, uma coisa sim ele sabe: “a morte é efêmera”. Sussurram-lhe as pedras toltecas. Erico sobe ao topo da pirâmide do sol e, lá de cima, alto e longe, contempla uma cidade imortal de sacerdotes e astrônomos. Agora o viajante quase toca o céu. Em Teotihuacán, a “avenida dos mortos” leva ao templo de Quetzalcoatl.

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O viajante vai da pintura mural de Teotihuacán, Tulum e Chichén-Itzá ao muralismo de Siqueiros, Rivera e Orozco. Dos hieróglifos astecas e pictogramas dos méxicas à poesia de José Gorostiza e Octavio Paz.  É uma viagem de Montezuma a Ruiz Cortines.  Do adolescente que encarna o deus Tezcatlipoca, na pedra dos sacrifícios, a um velho índio do século XX, imóvel e seco no seu poncho, num pueblito perto de Toluca. O viajante ainda precisa de muitas vidas para entender esse país, mas não precisa de mais nem um minuto para amá-lo.

Esse “México”, o livro, dormitava aqui num canto da biblioteca há anos. Livro herdado, que, como toda herança, é presente póstumo. Descubro, pela dedicatória, que minha avó ganhou o exemplar do próprio autor, num dia de abril de 1958, em Porto Alegre. Por obra dos mistérios do assunto, reaberto o livro, reaparecem as fotos da viagem ao México que meus avós fizeram em 1977.

Vinte e dois anos depois de Erico Verissimo, outra história de viagem é contada em imagens. Tudo o que há para ler, sem notas explicativas, está nessas imagens. Quem maneja a câmera é meu avô. Não fosse prova disso a avó aqui e ali, nas fotos, seria já para desconfiar pela escolha de certos ângulos e perspectivas. Ao contrário do escritor que fotografa cada pueblito, e, nos pueblitos, o rosto anônimo do povo, o relato do avô, seu enfoque, é de colossos, templos, pirâmides, escadas ao infinito, formas de luz e sombra. As figuras humanas que aparecem nessas fotos nem rosto têm, são só seres microscópicos.

 

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A não ser por uma panorâmica de Taxco, ou, atravessando a vista da fachada de uma igreja, uns sombreros, o povo mexicano nessa história vive na face das pedras. Nas ruínas do antigo observatório astronômico de Chichén-Itzá, no portal mágico de Kabáh, em Yucatán, ou no moderno monumental de uma pirâmide parda de Tenayuca, um México milenar, vigilante, se deixando observar, nos observa. De quando são essas fotos? De que século, precisamente? De um tempo em que o tempo não passa, como uma lembrança alucinatória de Sebald.

Em Chichén-Itzá, meu avô inventa ilusionismos sobrepondo planos. A serpente de pedra está abocanhando a pirâmide de Kukulcánn. O jaguar maia, de tocaia, espreita um casal que se afasta. No fundo de um corredor de colunas, Chac, o deus da chuva, deixa que venham e passem os visitantes. Ele, Chac, permanece.

Também aí está o México de Erico, um país “plástico por excelência”. Meu avô, pintor geométrico nessa época, recém-iniciado na escultura, bebe na fonte dos mestres da arte na pedra.

Em Teotihuacán, a pirâmide do sol nos quer levar ao topo, atrai como um vulcão, o avô vai se aproximando, registra uma vez, duas vezes, três, o sortilégio do apelo. Subir ao topo, desaparecer lá em cima, louvar o sol, coautor de todas essas cidades escultóricas, louvar o sol e aprender com esse deus um pouco do que aprenderam com ele os toltecas.

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Contam que, em terras de passado mágico, quando alguém prova dos segredos dessas terras acaba selando seu retorno a elas, um dia. Isso aconteceu com Erico Verissimo, que misturou as lembranças de sua viagem anterior ao México, em 1941, com suas andanças pelos pueblitos em 1955.

Acontece também com meu avô, esse retorno, agora com seus quadros geométricos, na exposição Superposiciones, no Museu Tamayo. A mostra, que inaugura este mês de maio, na cidade do México, reúne 12 artistas latino-americanos de coleções mexicanas públicas e privadas, entre eles Jesús Soto, Le Parc e Torres-García. Quatro das cinco obras do avô que participam da mostra pertencem ao acervo do Museu de Arte Moderna de Conaculta, onde foram expostas pela primeira vez em 1977, mesma época das fotos dos soalheiros teocallis.

A pouco menos de 50 km a leste da cidade do México, em Teotihuacán, num tempo em que o tempo não passa, a avó também reaparece, com amigos, caminhando pela “avenida dos mortos”. Quase alinhada com a escadaria da pirâmide da lua ao fundo, por obra e graça do fotógrafo, ela caminha sobre uma linha imaginária, na direção das nuvens.

 

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Mariana Ianelli

É poeta, ensaísta e crítica literária. Publicou, entre outros, os livros Fazer Silêncio, Amáldena e Treva Alvorada.