Cartago deve ser destruída, estimado Emiliano

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Estelitas, uni-vos.

Talvez pudesse erguer meu depoimento sobre as ruínas, de Ítalo Calvino. Ou mais perto: ao sonho dos homens que inventam cidades, de Carlos Pena, que é a mesma energia, mais ao Sul, de Borges, com seus deuses incendiados nas ruínas do templo.

Mas todo discurso é ruína como a memória é ruína sobre ruína.

Talvez por isso Francisco Brennand tenha construído seu ateliê sobre a ruína de uma fábrica construída sobre as ruínas de um engenho.

Há no Recife tantas camadas de ruínas, tanta sede de se diluir o passado, que não é errado falar de recifes que soterram recifes. Inteiras.

Recife é a cidade que o Recife engoliu.

“Tudo ali sofre a morte mansa/ do que não quebra, se desmancha”, dizia João Cabral num poema sobre canaviais e cupins.

Enfim, Recife é madeira que cupim.

Ando pela cidade. Hoje, há pouco para se ver.

Mas ouço vozes. São essas vozes de certa paisagem desaparecida.

Para mim, sons e silêncios são também paisagem.

Uma grande floresta de silêncios desapareceu: o beco do vento, de silêncios, nos anos 80. A madrugada na Ponte d’Uchoa, onde a manga, caindo no pátio do colégio, acordava o bêbado, no banco. O silêncio do domingo à tarde na Ilha do Leite, da rua da Glória. Seus Afogados, Aflitos — que devem seus nomes a catástrofes, e se erguem também sobre suas próprias ruínas, mudos. O mundo do Engenho do Meio, da Várzea, o silêncio.

Sem silêncios, dormimos e acordamos sem pensamentos, sem reflexões, sem futuros.

Aquele Recife acabou. E não adianta imaginar que foi o mundo que vi, que começava no Recife.

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Acabou como Cartago, que os romanos passaram décadas para varrer da face de Roma. Quem estava lá, não me deixa mentir: os romanos derrubaram muralhas, demoliram casas, galpões, estelitas, e mataram a população, os que resistiram, que não se dobravam escravos. Depois, semearam sal nas plantações para que nada mais ali crescesse. Era paisagem desoladora.

Contam que Emiliano, o general invasor, chorou quando viu.

Aqui, também, Emiliano, imperadores de novos recifes tentam salgar o Recife todos os dias, há décadas. Como aqui romanos não choram, é torcer para que a cidade pense mais. E resista.

Ah, lembrando o resto da história: Certo dia, acordando de sonhos intranquilos, Roma despertou e Roma havia caído.

Arruinada.

Sem choro.

Sem torres.

Sem vela.

 

Silêncio.

Sidney Rocha

É autor dos livros Sofia, O destino das metáforas e Matriuska, todos editados pela Iluminuras.