Antes que anoiteça

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     Era o século passado. Anny-minha-filha tinha 15, 16.
     Preparei uma viagem: eu e ela, pelo interior de Pernambuco, de carro.
     Bom, era um Palio 1.0, se isso for carro. Mas tinha um som potente, de respeito.
     Estávamos ali por Santa Maria da Boa Vista. Pôr-do-sol a bombordo.
     A região era conhecida por Polígono da Maconha.
     Pra você ter ideia, a polícia federal só andava por lá escoltada pela militar.
     “Se quer um conselho, chegue à Floresta antes do anoitecer, senhor”, disse o patrulheiro rodoviário de óculos escuros, lá atrás.
     Pelas minhas contas, eu iria precisar de 200 km por hora, mas havia as curvas. Vamos lá.
     O pôr-do-sol não tava nem aí, sem pressa.
     Era aquele tipo de viagem que pai e filha fazem pra checar se ainda são as mesmas pessoas. São mesmo quem sempre disseram ser?
     Chega.
     Agora, acelero.
     Tirei a surpresa do estojo de cds, no guarda-treco da porta do carro.
     Impus o mistério mais próximo da mágica.
     Antes fiz o introito:
     “Vais ouvir algo agora. E isso aqui vai mudar tua vida etc, etc — a lágrima era teatral mas era verdadeira também.
     Aquele tipo de coisa pela qual se faz tudo para a outra pessoa agarrar, esses convites ou súplicas que fazemos aos nossos filhos para habitarem por um minutinho nosso mundo, agora inexistente… sabe como é isso, né?
     O pôr-do-sol vinha de todos os lados.
     Nos primeiros acordes você já sabe: um furacão sopra e lhe carrega tão docemente para um planeta tão seu em algum não-lugar, que você acha injusto só você se lembrar da sua própria vida. Você certamente sabe como é.
     E a voz brilhou lá de dentro.
     A voz de Deus:
     “Standing on the waters casting your bread…
     Então meus olhos de bezerro de ouro brilharam ainda mais:
     “Escute, meu amor”, eu digo pra ela, a loirinha com olhos de diamantes, ali, os pés sobre o tabeliê.
     “… while the eyes of the idol with the iron head are glowing.
     E ela:
     “Parece muito com o Bob Dylan, pai.”
     Anjos alcançam o carro a 140 por hora e batem no vidro pelo lado de fora.
     Estou entregue. E em silêncio.
     “Cara, estou ouvindo Jokerman, do Dylan, com minha filha, e ela reconhece a voz?”, pergunto ao anjo.
     A voz. A voz. Aquilo parecia porre de loló, cara.
     A voz. A voz. A voz. A voz. A voz. A voz. A voz. A voz. A voz. A voz. A voz.
     Olhos em chamas, tenho de perguntar, como qualquer velho maçom que vê o neófito chegar ao centro do labirinto:
     “On-de-vo-cê-ou-viu-Bob-Dy-lan?”
     E ela, blasé:
     “Dia desses. No Central Park. De graça.”
     Eu, que não conheço nada e quase lugar nenhum, de repente, descubro — sentindo — o jogo fantástico do tempo, cada uma de suas cartas, seus truques fabulosos, e como isso nos iguala a todos.
     Noto, enfim, o quanto o mundo é pequeno e longa a estrada.
     Floresta a 10 km, disse um querubim de estrada — [arrancando as placas?]
     Anny olha para os anjos lá fora mas só vê pássaros sem graça surfando nas luzes finais.
     Aumento o volume. Anny sorri.
     Nada ultrapassa nada, nada alcança nada.

***

     Que nossos filhos tenham sempre mais sorte que nós.
     De algum modo, já têm.

 

Sidney Rocha

É autor dos livros Sofia, O destino das metáforas e Matriuska, todos editados pela Iluminuras.

1 Comentário

  1. dayse gomes

    Sidney Rocha escritor desde sempre, parece-me que uma das vezes, revelou ter escrito seu primeiro conto, algo cordel, aos 08a…Pai descobriu-se depois, mas do mesmo modo, muito jovem pra essa empreitada, vários amigos não acreditaram, como sempre foi o primeiro, saiu de frente, e, como todas as vezes, seguiu e noutro momento, contou-me, já não é somente Pai, é Pãe. É essa a aventura de viver sendo, de alguma forma completo, carregado de responsabilidades e de grandes sonhos!! Parabéns pelo seu dia!!

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