Como me tornei escritora

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     Há cerca de dez anos, quando eu atravessava a calle Esmeralda, em Buenos Aires, reencontrei-me com Xul Solar, amigo de longa data. Reencontro agradável, nos sentamos num café e colocamos o assunto em dia. Na ocasião ele me contou que Macedonio Fernández estava hospitalizado, e que, por isso, este ainda não havia conseguido terminar o romance Museo de la Novela de la Eterna. Lá pelas tantas, Xul Solar tirou do bolso suas cartas de tarô e me disse: “Vamos ver sua sorte”. Não sou muito afeita a esoterismos, mas me permiti essa nova experiência.
     Xul embaralhou as cartas e as espalhou sobre a mesa, pedindo-me que escolhesse três delas. Virou as cartas que lhe dei, aproximou-as dos olhos (acho que aí já não era mais Xul Solar, mas Jorge Luis Borges…, contudo não tenho certeza), e me disse: “Você será escritora”. Curiosamente, escrever era um sonho que eu havia abandonado depois de ter lido “A carta roubada”, de Edgar Allan Poe.
     A frase de Xul/Borges me assombrou. O futuro era nebuloso.
     Fato é que, diz o dito popular, do destino não se pode escapar.
Quando me mudei de casa — aluguei um quarto e sala no quinto andar de um prédio sem elevador no centro de Florianópolis — tive que me desfazer de muitos livros. De alguns deles copiei frases para guardá-las de recordação.
     Foi justamente nessa época que um editor me encomendou um livro de ficção.
     Escrevi durante meses textos que acabaram no lixo. E, justamente dentro do cesto de lixo, encontrei por acaso as frases extirpadas dos meus antigos livros, as quais, não sei por que, eu achava que não fossem mais ter utilidade.
     Eu mesma não saberia escrever um livro, mas poderia “reciclar” as frases que já estavam prontas e que eram de renomados escritores. Não incorreria em erro valendo-me desses gênios.
     Foi assim, reciclando frases de autores famosos, que construí um precioso livro e me tornei escritora.

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Dirce Waltrick Do Amarante

Publicou livros como Cenas do teatro moderno e contemporâneo, Pequena biblioteca para crianças e As antenas do caracol.