Leonard Cohen

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Leonard Cohen ainda canta. Faz 81 anos este mês, e canta com a voz grave sussurrada, parecendo até mais Leonard Cohen agora nesse tom escuro de homem do Velho Testamento.

Não é mais a fase do amante entre um templo e a beira de um rio, não é mais aquela voz de amante possível, aqueles poemas de convívio viciante, amor de cigano, amor de estrangeiro.

Agora a alma erótica de Leonard canta lá da outra margem do rio. Divina ironia, cruel ironia, uma alma gutural cantando os incêndios e os estupros e os holocaustos do mundo quase como um blues.

Antes essa voz apocalíptica cantava também, era bíblica também, penumbrosa mas não tão grave assim, ainda uma alma cantando da outra margem ou pouco a pouco atravessando o rio.

Era, num tempo não muito distante, o amor ganhando da morte não só no domínio do pensamento, no domínio da voz também. Mas as palavras vibram agora bem mais lentamente em seus acastanhados círculos concêntricos de tempo.

O servo de Deus continua a rezar, está sozinho dentro de um coro de mulheres, é um homem antes enternecido do que extenuado pelo adeus, uma partícula se infiltrando no futuro, um sêmen de palavra entre mulheres que ainda nem vieram, mulheres que amanhã virão cingir essa palavra como que abrindo as pernas para um cisne.

A voz escurecendo, rateando, se transformando como se transforma um rosto, um corpo, um homem até a humildade física, Leonard Cohen verga, verga mas não quebra, 81 setembros contando com este, e a alma que semeia o pensamento que semeia a palavra, essa nunca termina de nascer.

 

Desenho a tinta china, Alfredo Aquino

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Mariana Ianelli

É poeta, ensaísta e crítica literária. Publicou, entre outros, os livros Fazer Silêncio, Amáldena e Treva Alvorada.