Festina Lente

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Comecei a escrever O Porto em 2011 e passei quase quatro anos às voltas com esse livro, descobrindo a cada vez uma forma nova de conhecê-lo. Sempre que pensava que estava pronto, percebia que ele exigia de mim mais tempo e paciência, e que era preciso escutá-lo e para isso esquecer a pressa. A escrita desse livro foi – e ainda é, de certa forma – um exercício de aceitação, porque cada uma dessas cem páginas foi reescrita à exaustão até o momento em que eu reconhecia que elas cabiam em seu lugar, que elas estavam satisfeitas com sua forma e tamanho, que elas agradeciam em silêncio pelo fato de que respeitei seu tempo demorado até que se encontrassem. Foi preciso esquecer os desejos imediatos para escrever esse livro, que eu fui descobrindo o que era e o que queria ser aos poucos, alternando o texto do caderno para a tela, da tela para o caderno, recopiando as mesmas palavras inúmeras vezes. O Porto é mais do que tudo, para mim, o livro que me ensinou que escrever é deixar de lado toda e qualquer ansiedade que se inflama, é abdicar por algum tempo da quantidade insuportável de estímulos que recebemos ao longo do dia: será preciso aquietar- se, aquietar-se e respirar, para escutar o que se diz no subterrâneo, com a voz tão baixa que quase inaudível. Era como afinar os ouvidos no meio da cidade cheia de ruídos para localizar os caminhos que fazem os sons invisíveis das palavras que querem ser escritas. O que mais devo ao Porto é esse gesto de abaixar a cabeça e deixar, deixar acontecer, e permitir que a escrita se faça disso, nem que sejam necessários dias e dias para concluir cinco linhas.

Levei isso para a minha vida toda, enquanto escrevia O Porto e até hoje, sempre: dar o tempo ao tempo. Dar o tempo ao tempo quer dizer entregar de graça aquilo que recebemos desde o momento em que estamos aqui: toma essa força que eu ganhei. Entregar sempre um presente para esse monstro que arrasta, essa quimera que leva, devolver a essa criatura a dádiva que ela também entrega: pega o tempo que você me deu. É a cada vez um desafio escrever e abrir espaço para esse outro tempo possível que a escrita demanda, nesse mundo em que tudo se faz pela imediatez do externo e pela rapidez do curto. Se propor a escrever e dar o tempo ao tempo, se dispor a esperar e aceitar a demora como maior recurso possível para que cada palavra descubra seu peso e lugar, tudo isso é também procurar se desvincular de uma construção social que resulta em uma temporalidade inflamada e cancerígena, desamarrar-se das amarras (ou ao menos reconhecê-las e retesá-las) para estar só diante do texto, diante do tempo. A escrita me ensina que é preciso calma para que a procura se faça real, é preciso silêncio para que o som emerja do escuro.

Terminei O Porto dia 31 de dezembro de 2014: percebi na época que não poderia acabar mais um ano sem ter enfim acabado esse livro. Comecei 2015 com o livro então impresso e encadernado, de repente pronto depois de ter me seguido como um companheiro imaginário durante esses anos em que mudei tanto também por causa dele. Era o momento para que ele não fosse mais meu e pudesse ser do mundo: foi por isso que janeiro e fevereiro deste ano foram meses em que compartilhei finalmente o livro com outras pessoas, e passei a enviá-lo para editoras. Em meados de fevereiro recebi a resposta da Iluminuras: queriam publicar O Porto. Foi uma alegria saber que o livro podia ir embora. Poder libertá-lo de mim. Mas, na primeira conversa com o Samuel, o que ele me disse foi: lançaremos o livro, mas só no ano que vem. Será preciso esperar 2016 para que o livro seja editado com a devida atenção; o ano é de crise e a agenda já está programada. Por um momento, quis persuadi-lo a mudar de ideia. E então ele me disse: você é jovem, Leda. Você tem que aprender a esperar. Só pude sorrir em silêncio porque a voz do editor era quase que a encarnação da voz que esse livro repetiu por todos os últimos anos: você tem que aprender a esperar. Aceitei imediatamente. Qualquer dúvida ou outra possibilidade foi resolvida com essas palavras, e eu soube que O Porto sairia em 2016, pela Editora Iluminuras, e que não poderia ser de outro jeito.

Festina lente – esse ditado latino que significa: apressar-se lentamente. Sinto que é isso que tenho feito durante todo o ano de 2015, quando esse livro pronto me acompanha ainda em suspensão, sem ser mais meu e ao mesmo tempo sem ser do mundo. Esse fantasma que me perseguiu durante o ano todo e que me impediu de começar a escrever um livro novo, e ao mesmo tempo permitiu que eu me abrisse para coisas novas e diferentes de tudo o que eu já havia feito. Apressar-se lentamente. É preciso saber manter o crescimento lento das plantas, seguir o ritmo que conduz os dias. Hoje vi a primeira grande árvore de natal na Avenida Paulista: isso significa que o ano de fato está acabando. Talvez esse ano, que começou com o ponto final do livro que eu estava escrevendo nos últimos três, tenha sido o mais marcado por ele: não incluí mais nenhuma palavra no Porto, mas ele continuou a me ensinar que as coisas têm o seu tempo próprio, e que a minha tarefa é talvez simplesmente descobrir esse tempo interno das coisas, abrir o espaço para que os tempos particulares se façam, se realizem, se descubram e se esqueçam. 2015 foi um ano longo e no qual aprendi que esperar não significa ser passiva em relação às coisas: ao contrário, a espera pode ser uma condição extremamente ativa. Reconhecer-se incompleto. Levar as coisas com a força suficiente e com a pressa suficientemente pouca.

É assim que as coisas são porque é assim que as
coisas foram e é assim que as coisas eram antes
de serem assim. É assim que elas seriam se não
fossem bem assim.

Leda Cartum

publicou o seu primeiro livro,As horas do dia – pequeno dicionário calendário (Editora 7Letras), em 2012. Formada em Letras pela Universidade de São Paulo, hoje no mestrado estuda o escritor Pascal Quignard – de quem está traduzindo o livro Le sexe et l’effroi. Trabalha com texto e produção escrita em diversas áreas, desde tradução e editoração até roteiros para cinema e dramaturgia para teatro. É ganhadora do Prêmio Off-FLIP de 2014. Seu próximo livro, O porto, sairá pela Editora Iluminuras em 2016.

1 Comentário

  1. magali Boguchwal Roitman

    Lindo texto. Muito significativo para mim, que escrevo textos para a revista da Hebraica e tenho de brigar com cada palavra para que se aquiete rapido e aceite o lugar que lhe designo para poder escrever o parágrafo seguinte.
    O mais incrível, é que, por conviver pouco com as palavras que digito, quando as vejo impressas na revista, com fotos, legendas e números de páginas…parecem pertencer a outra pessoa…Creio que, por ter convivido tanto com suas palavras, você as veja, transoformadas em livro, como suas amigas ou filhas que voCçê partilhará com o mundo. Quero ver a edição pronta” Abraço, Magali

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