Carta a Vinícius de Moraes em favor dos escritores mineiros daqueles tempos

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foto: Vista de Ouro Preto desde o Morro da Queimada

Há uns dez pares de dias, ó Vinícius, sua velha carta contra os escritores de Minas ressurgiu com a inesperada ironia de um autodesengano. Mais do que as palavras poderiam dizer sobre a alma dos mineiros, disse a realidade crua e enlameada. Por que o pensamento da morte os persegue, a eles, escritores de Minas, você perguntava naquela carta de 1944, numa performance estilística supostamente contra o temperamento mórbido dos mineiros também feito estilo. A essa pergunta, responde agora a realidade. A realidade crua e enlameada. Veja, ó poeta, que é a morte que persegue essas terras antes mesmo de seus poetas a pensarem. Que não fosse a intimidade de compreendê-la também por dentro, a essa presença de morte, o tanto de vida que já se perdeu, durante séculos, nessas terras, não voltaria a latejar. Mas sim: lateja, lateja a vida assediada, devassada, aviltada, concessionada.

Porque lhes roubam, a essas montanhas, porque lhes tem roubado descaradamente, à sua riqueza natural estupenda, porque lhes roubaram, aos negros, das terras africanas, até a sorte dos mesmos no estrangeiro, porque, nessa paisagem de extremos, de cumes e despenhadeiros, de lonjuras azuis e cruzes sob um fundo celeste, a alma dos escritores dessas terras, ao menos a alma dos escritores do seu fecundo tempo, Vinícius, só podia ser aquela que você reputou justamente patética, mas injustamente pequena.
Não vê que pedir leveza, sob o pretexto de uma revitalização do espírito mineiro, seria o mesmo que pedir de Minas que se desmemoriasse de suas águas, montanhas e pedras? O mesmo que pedir um tipo novo de afetação, de palavra artificial, apenas como denegação da realidade de centenas de anos de algemas, libambos, ferros de marcar, viramundos, brunidores, bateias, catas, mundéus e minas? Não vê que reclamar nudez a esses cuja intimidade há séculos se resguarda atrás de gelosias não surte, ao fim de tudo, mais do que um leve sorriso com o que se presenteia um gracejo adolescente? Não vê que o vocabulário familiar das casas onde habita a antiquíssima alma mineira é de conciliábulos, conventículos, coxias de pecado e insurreição, quartos de purgar, reposteiros?

Mentira que falte a mulher ou sua volúpia na palavra de seus amigos de Minas, Vinícius. Sabe sua alma de poeta que isso é mentira. Que ainda mais volúpia existe nesse teatro de luz e sombras, no fogo onírico das mulheres de pelo ruivo de Murilo, na rosa e na prostituta que se entreabrem para Paulo, na febre gostosa e culpada dos poemas de Lúcio para o amigo, na flora erótica de Carlos e na fruição da boca santa de sua amada, diligentemente adorando, em posição devota. Quer mais louca e escandalosa chama do que esta que se alteia, usufruindo da mesma pressão que faz por reprimi-la?

É só deitar o ouvido sobre o peito desses que parecem tão contidos e silentes, e então alguém escutará o fragor de muitas lutas internas, e muitos dramas sem plateia, contra uma muito mais longa história de acorrentamentos. Não é que tenham escolhido esses dramas, não é que os tenham eleito entre outras peças de um mostruário, que não são dramas de entrar ou sair de moda, e sua alma de poeta também sabe disso, não é, Vinícius? Que lhes foi dado ver, aos escritores mineiros daqueles tempos, a existência de sombras, lapas, ermidas, veios de ouro, cruzes, espadas, forcas, cristos, e porque lhes foi dado ver, não puderam se fazer de cegos ou alheios à existência dessas coisas antiquíssimas e tão vivas.

Você, que tanto escreveu sobre almas, libélulas, anjos e abismos, você que chamou poeta àquele que não teme a morte, que se alongou em elegias e invocações aos santos, que provou de uma dramaticidade tão barroca quanto a mineira ao falar de trevas e lápides, ao se confessar triste apesar de a vida ser boa, para lá de todo exercício estilístico, você não ignora a dor de seus amigos, não é, Vinícius? E não somente a dor dos mineiros, da alma mineira, também a dor dos que amam Minas, como Guignard, que segredou uma vez ao jornalista José Franco só pintar seus quadros religiosos quando atacado de reumatismo, como para sentir mais a fundo a dor dos santos. Guignard, que se apaixonou por Minas desde aquele minuto de êxtase em que viu as igrejas se elevando para o céu ao nascer do sol em Ouro Preto…

Toda essa mistura de penumbras e esplendores, todo esse léxico de alturas e profundezas, ressurgiu neste novembro, transverberando a tal alma patética, penetrando as paisagens de Minas, mudando seus verdes e azuis em cor de cova e gosto de morte, respondendo à sua carta com a eloquência de nenhum discurso, mas da realidade. A realidade crua e enlameada. E é sempre assim, para lá de toda literatura, de todo artifício novidadeiro: sempre as águas, as terras e os céus que retrucam com a maior das ironias. Não é mesmo, Vinícius?

Mariana Ianelli

É poeta, ensaísta e crítica literária. Publicou, entre outros, os livros Fazer Silêncio, Amáldena e Treva Alvorada.