A tradução de Finnegans wake

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Não conheci James Joyce pessoalmente, mas conheci sua filha Lucia.

Ela era ainda jovem e fui visitá-la num sanatório perto de Londres. Ela estava deitada, com os olhos abertos, examinando o teto: “I have never seen a star in the sky”, ela me disse, “Do you know why? No clouds but no stars as well” (o inglês dela não era muito bom, nem o meu, pelo menos foi o que a minha amiga Luci me disse). “É assim mesmo”, eu disse. Ela ficou em silêncio e aproveitei para me apresentar como estudiosa e tradutora da obra do seu pai. Na verdade, o que eu queria é que ela me contasse dos anos de Finnegans wake.

Lucia_Joyce_danca 3Mal terminei de dizer wake, ela berrou: “That crazy book! I have nothing to do with that! Nothing!”.

Ela ficou brava, levantou bruscamente e disse: “Let’s dance!”. “Ai, ai, onde eu fui me meter”, pensei. “Que doidice…” Estava em pleno pensamento quando ela me puxou pelo braço e dançamos Cole Porter — … Let’s dance, let’s fall in love... — Quando a música acabou, Lucia me disse: “You dance very well. Como back tomorrow and I’ll keep teaching you how to dance. Bye”. Deitou na cama, fechou os olhos e ressonou profundamente.Lucia_Joyce_danca_2

A enfermeira entrou em seguida e me disse que a hora de visita tinha acabado. Fui embora, mas voltei no outro dia e as aulas continuaram por mais de um ano. Até um dia que ela me falou: “Enough! You will never be a dancer. If you translate as badly as you dance, then keep far away from my dad’s books”. Me levou até a porta do quarto, me pôs para fora e bateu a porta.

Voltei para o Brasil e resolvi me dedicar à dança; agora que me apresentei na Brooklyn Academy of Music, em Nova York, com a companhia de dança da Trisha Brown, tomei a decisão de me debruçar sobre a tradução de Finnegans wake.

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Dirce Waltrick Do Amarante

Publicou livros como Cenas do teatro moderno e contemporâneo, Pequena biblioteca para crianças e As antenas do caracol.