Gingobel pra você também, Coetzee.

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Por Sidney Rocha

Drummond dizia não ser poeta o tempo inteiro. Eu mesmo acreditei, até pouco tempo, que ninguém era escritor 24 horas por dia e que, ao largar o lápis ou me afastar do teclado, aquele animal literário adormecia em algum lugar dentro de mim. Eu estava convicto disso até me colocar na pele do cineasta e jornalista Wim Kayzer, nessa excelente entrevista com John M. Coetzee, para a TV holandesa VPRO.

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Drummond deixou uma obra grandiosa, e por isto pode se equivocar à vontade. E o que se aplica ao poeta não se aplica necessariamente ao prosador, mas, no meu caso, o engano foi produzido por um deslize de concentração ou inteligência tão fatal como o de um pugilista no ringue, pensando em qualquer outra coisa que não na possibilidade do soco. Poucas vezes vi como precisão e concisão resultam de uma atitude mental completa, de um grande instinto de sobrevivência para um escritor, como se processa em JM Coetzee e, por isto, na sua literatura. A impressão é de estarmos diante de uma reencarnação de Boécio, para quem todas as perdas não valem qualquer lamentação. E, se a filosofia não consola, ninguém deve procurar consolo (nem beleza talvez) na literatura. Esse é o nocaute definitivo.

Porque desfez primeiro esse nó, Coetzee consegue não baixar a guarda, nunca. Na luta, diz o tempo todo: “Não conte comigo, não conte comigo, não conte comigo”.

Coetzee e seus hábitos mentais. Então, entre uma pergunta e a eternidade de uma resposta, você nota o quanto está tão estupidamente bailando sozinho.

O resultado é o fracasso da palavra perante um silêncio de ferro. Nuvem vence montanha. Contudo, Kayser consegue, a partir disso, e um tanto depois, já no corner ou no quarto de um hotel, produzir documento bastante sensível sobre uma das personalidades mais fortes da literatura contemporânea. A entrevista — ou o que você quiser chamar à experiência, depois de assisti-la — foi publicada em livro — Het boek van de schoonheid en de troost, Editora Olympus, 333 páginas, Holanda —, em 2006. Kayzer entrevista cerca de trinta escritores, pensadores como Simon Schama, artistas como Karel Appel (morto em 2006), o cientista Stephen Jay Gould, a antropóloga ativista Jane Goodall, o crítico George Steiner, músicos, poetas, entre outros & outras. Parece ser um livraço. Aqui, segue a entrevista com Coetzee, que vale como presente de Natal.
Feliz 2016, Coetzee, e os demais leitores do blog da Iluminuras.

Sidney Rocha

É autor dos romances Fernanflor (2015) e Sofia (2014), além dos livros de contos O destino das metáforas (2011, Prêmio Jabuti) e Matriuska (2009), todos editados pela Iluminuras.

1 Comentário

  1. wagner

    Muito bom! 😀

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