A morte da mãe de Raymond Roussel

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Quem, aqui em Florianópolis, não se lembra da mãe de Raymond Roussel?

Num mês de junho, ela, que sempre foi uma grande viajante, desembarcou, junto com um vento sul gélido, na praia de Cachoeira do Bom Jesus, em Florianópolis. Bem num dia em que os pescadores puxavam redes cheias de gordas tainhas e em coro gritavam de alegria.

A mãe de Roussel mal pôs os pés na areia e foi ver do que se tratava aquele exótico ritual. Ela falava com dificuldade o português e se apresentou como a mãe de Raymond, que costumava passar férias na região e conhecia bem os nativos. De fato, ele os conhecia bem, pois quando os ilhéus souberam quem ela era, fizeram-lhe festa e prepararam um farto banquete de tainha frita e pirão d’água, não sem antes proporcionar a ela o prazer de puxar uma rede com os outros pescadores.

Ao anoitecer, a Sra. Roussel estava molhada e tilintava de frio e fome. Sentou-se num banquinho de madeira com seu prato no colo e começou a devorar tudo o que os pescadores punham nele. No outro dia, a mesma coisa e assim se seguiu durante mais de um mês. Mas, ao final do mês de agosto, quando jantava sua tainha frita no banquinho de madeira, ela começou a tossir. Os pescadores, certos de que ela estava engasgada com uma espinha de peixe, puseram os braços dela para cima e deram-lhe tapas nas costas.

Contudo, a Sra. Roussel não parava de tossir. Ao cabo de mais ou menos meia hora, ela cuspiu pirão com sangue, virou os olhos para cima e morreu. Dizem os pescadores que uma espinha de tainha havia lhe atravessado o estômago. Mas há controvérsias, parece que a Sra. Roussel há anos sofria de tuberculose.

O fato é que nada mais podia ser feito, a não ser enterrá-la. Como era sabido de todos, ela costumava viajar com o seu caixão na bagagem e isso facilitou a vida dos pescadores que simplesmente puseram seu corpo dentro do esquife, fizeram o velório, chamaram o padre e partiram em procissão com o caixão para o cemitério mais próximo, que é, aliás, ao lado da minha casa. Da janela do meu quarto vejo a sepultura da Sra. Roussel, mas nunca vi seu filho, o Raymond, por aqui. Os pescadores disseram que mandaram uma carta para Reimundo, como eles o chamavam, mas a carta voltou, talvez ele tivesse mudado de endereço, mas isso a gente nunca vai saber.

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Dirce Waltrick Do Amarante

Publicou livros como Cenas do teatro moderno e contemporâneo, Pequena biblioteca para crianças e As antenas do caracol.