Tell me, good Brutus, can you see your face?

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   Durante as próximas cinco semanas, sempre às sextas, o escritor Sidney Rocha fará algumas perguntas aos leitores. Para participar, deixe sua resposta lá embaixo, nos espaço para comentários do nosso blog. Quem sabe você não recebe uma boa surpresa dentre nossos lançamentos, em casa?
Boa pergunta. Participe.

1.
    De algum modo, todos os livros são subversivos. Mas somente os livros que fazem perguntas são subversivos de verdade. Os que vêm com respostas anexadas são inferiores.
Uma amiga me falou que todas as perguntas do teatro grego e de Shakespeare foram supervalorizadas por Freud.
“Foi ou não foi, foi ou não foi?”, insistia, igual ao sapo de Bandeira, pelo facebook — em si outro perguntador compulsivo com seu “No que você está pensando, no que você está pensando?” de todo dia.
   Feitas por Shakespeare, robôs ou por livros — ou livros escritos por robôs emulando Shegespere, num grande mundo sem autores —, não importa: perdemos o interesse por perguntas. Pelo menos pelas grandes perguntas. Dito doutro jeito, perdemos o interesse pela verdade. Pelos significados.
   Nada d“The Great Fear”: esqueça: nem colonos nem cabanos irão reagir, pois já não sabem o porquê nem o para quê. Estão talvez neurologicamente impedidos de sua capacidade de sentir. Estamos no tempo da “Grande Ataraxia”, ou da “Grande Apatia”.
   “São épocas sem compaixão”, ia completar, mas ela não estava mais lá, ou se pusera invisível, uma dessas formas covardes de ghosting das redes virtuais.
O que a gente faz sem a face do Outro, quando a gente “desaparece” do Outro? Ou quando o Outro faz desaparecer nosso rosto?
Sigamos sem ela.

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   2.
   Que perguntas fazem os livros que interessam?
Todo livro termina por construir seu próprio leitor, e isso vale para a Bíblia, A revolução dos bichos, o Corão, Alice no país das maravilhas — todos esses proibidos por algum sistema, em algum tempo, e ainda hoje.
   Os sistemas não temem os livros. Temem as questões.
Têm-nos ensinado todas as paranoias em relação ao nosso vizinho e nos vendido cercas elétricas e alarmes chamados “orai-e-vigiai” (as portas, as fronteiras, as esposas, os maridos), mas o fato é que não precisam nos vender mais nada: porque parte de nós congelou.
   Milhões já não sentem “gozo nem tormento”, como no verso de Cecília Meireles.
   Então, me responda aí: que perguntas fazem os livros que lhe interessam?

Sidney Rocha

É autor dos romances Fernanflor (2015) e Sofia (2014), além dos livros de contos O destino das metáforas (2011, Prêmio Jabuti) e Matriuska (2009), todos editados pela Iluminuras.

7 Comentários

  1. Sônia O Silva

    “Se é tão duro, por que continuamos?”, eis a pergunta que se fazem, quase sistematicamente, os narradores dos livros que leio.

  2. Simone Alves

    MUITO COMPLEXO E COMPLETO OS SEUS TEXTOS LEVA A INTERAÇÃO ENTRE O OUTRO E OUTREM. DE FORMA E FORMULAS ESTONTEANTES ONDE O VERSO E O REVERSO SE CASAM SINALIZANDO UMA NOVA VISÃO DE MUNDO. GRATA PELOS ENSINAMENTOS.

  3. André Argolo

    “olha o que você me fez fazer”, diz uma criança a outra. Um livro “dos bão” é também assim: meio quem toma a culpa, meio culpado mesmo – “olha, danado, o que você me fez me perguntar…”. Raskolnikov plantando a dúvida se aquele monstro que mata a dona do apartamento também nos habita, por básico exemplo. As perguntas surgem do escuro que o livro ilumina, pra resgatar ali um sorriso empenado, um choro entupido, um espanto travado, um medo cravado. Talvez o livro pergunte o que antes dele eu não sabia ou não queria me perguntar.

  4. Neuma Brasil Xenofonte

    Os livros que me interessam perguntam sobre o quanto há em mim possível de ser melhorado e o que posso fazer por um mundo melhor.Em outras palavras, quem sou eu para mim mesma e quem sou para o outro na presença ou ausência deste.

  5. Wagner Bezerra Pontes

    Os livros que me interessam sempre me perguntam categoricamente: porque eu sou o livro de você?!

    Eu fico numa batalha árdua se o livro sempre tem algo a me dizer e peno por combater com garras e urros riscos sob o papel aquilo que tanto procuro na vida em busca da palavra ou pensamento ideia mundo perdido no meio de tantas páginas. Busco o meu duplo. Me enxergar ali.

  6. Nathan Matos

    Me perguntam sobre mim, não no sentido narcísico. Perguntam-me enquanto ser humano que sou o que sou ou o que represento.

    Os livros que leio perguntam-me o que e quem eu vejo em mim e no outro, quais elos nos unem. Vejo perguntas sendo feitas para que o nosso interior não desabe em nós, mas que se faça no outro, constituindo então um pensar sobre o que representamos.

    A humanidade é sobre o que me perguntam os livros, são esses livros que prefiro ler, sobre temas assim é que gosto de ser questionado.

  7. Ivon Rabêlo

    Sidney, são imensas as questões do teu lindo texto, complexo como só a Literatura soa, completo como um manual de Filosofia. Penso muito em mim quando leio, em meu rosto alheio às respostas, fixado na pergunta que me fazem os livros lidos, como uma esfinge às avessas: “quem és?” E, como diriam poetas, respondo: sou o pó da própria pergunta.

    Ou até mesmo um osso no corpo dessa pergunta. Dessas perguntas todas, sobre mim mesmo e sobre o(s) outro(s).

    Como bem o dizes: “O que a gente faz sem a face do Outro, quando a gente “desaparece” do Outro? Ou quando o Outro faz desaparecer nosso rosto?”

    Grande abraço, meu caro e, feliz com teus diálogos semanais aqui, permaneçamos!

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