“Pai, dize-me: por que devo te amar?”

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   Segunda crônica, de cinco, de Sidney Rocha, sobre as perguntas que nos fazem os livros. Na semana anterior, nossos leitores puderam enviar respostas, no espaço para comentários, lá embaixo. Dá tempo: responda àquela e a esta pergunta de hoje. Quem sabe você não recebe uma boa surpresa dentre nossos lançamentos, em casa? 
Boa pergunta. Participe.

*****

  1.
  Ontem, entrei na igreja da rua do Lima, para a missa das sete. O.k., Pai, sem mentiras: eu fugia do temporal. Raios, ventanias e carnavais esmagavam o Recife de pouca fé, algo terrível, Pai, passou na Globo, o Senhor viu.
  Fiquei ali, a igreja vazia, não fosse aquela família em pose de foto tentando ocupar o mesmo lugar ao mesmo tempo no banco da frente, diante da fotografia presa ao cavalete. Seria missa em homenagem ao seu pai morto. Eu não os conhecia. Pensava no modo como seguimos inventando artifícios para aceitar o inaceitável da vida. Inventamos a roda e a noção de destino. Depois, a ideia de inconsciente — que funciona como um puxadinho da figura do pai. Aliás, a figura do pai é outra construção artificiosa, Pai.
  Foi uma semana difícil. Desde a tentativa do golpe, ou um pouco antes, quando o euro atingira quatro reais, eu andava buscando epifanias. Vivia à procura de respostas e não as encontrava em conversas com um ou dois amigos tudólogos nem na dark web. Estava impressionado com as velhas invenções como o guarda-chuvas e o para-raios, mas sobretudo com inovações, como sessões de psicanálise por Skype e de como andam todos loucos com essa urgência por confissões e recompensas. Vai ver, por isso, Pai, o Vaticano entrou nessa de startup, vendendo seu soft confessional pela Amazon, a 1,99 dólares americanos.
  Um aplicativo de autodelação premiada, Pai. Sensacional. Se Deus não é brasileiro, leva o maior jeito, creia. “Contas protegidas por senha e um passo-a-passo para o sacramento”, “Opção para adicionar pecados não listados”, “Escolha entre 7 diferentes autos de contrição” e “Compatível com display de retina”. Display de retina, Pai. Mais: “Com um exame de consciência pessoal”. Antigamente, Pai, as cartas aos amigos nos faziam praticar exames assim. Não existem mais. Só as péssimas crônicas. A versão 2.0 do app vem ainda com “Três novas vocações! Diácono (casado), diácono (single) e seminarista”. Mas, o melhor: “Vários erros corrigidos”, se autoconfessa o prospecto. Verdade, Pai. Dai uma googlada e vede.

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  2.
  O dilúvio ou a madame Pompadour não deixavam a missa começar. O monólogo lá dentro resultava repetitivo, então saí. “O céu é todo trevas: o vento uiva./ Do relâmpago a cabeleira ruiva/ Vem açoitar o rosto meu”, dizia o pobre Alphonsus.
  Pobre de mim: estava cansado das sutilezas e das astúcias.
  As perguntas certas, onde estavam?
  Foi quando me lembrei de Fiódor Dostoiévski, aquele garoto epilético e seu pai morto, de Fiódor diante do pelotão de fuzilamento e nos calabouços da Sibéria, pobre Dostoiévski. Mas pensava fervorosamente no pai assassinado de Dostoéivski e na morte de Fiódor Karamázov, nas confissões, nos tribunais. “Neste caso tão doloroso, o defunto, Fiódor Pávlovitch Karamázov, nada tinha de um pai, tal como nosso coração acaba de defini-lo. É desagradável. Sim, com efeito, há pais que se assemelham a uma calamidade.
  E lá no fundo do tribunal ainda arde a interrogação: “Pai, dize-me: por que devo te amar?
Aí está a pergunta de verdade, a pergunta que só os livros implacáveis podem fazer. Perguntas assim fazem flutuar criaturas no silêncio e calam os trovões sobre a Recife, agora recuperada, toda branca de luar.

***

E você, me diga aí: que perguntas terríveis fazem os livros que você lê?

14 Comentários

  1. Diogo Monteiro

    “Porta ou janela?”

  2. Simone Alves

    MINHAS LEITURAS SEMPRE ME REPORTAM AS SITUAÇÕES DESCRITAS ONDE BUSCO RETIRAR O QUE ME FACILITA A PRAXE NAS INVESTIDAS DA VIDA. MUITO INTERESSANTE E EDUCATIVO A CHARGE DESSA CRÔNICA NOS MOSTRA A VIOLÊNCIA HEDIONICA.

  3. Victor Mendes

    lendo “satolep” de Vitor Ramil: será que esse livro é totalmente ficção? Ou é uma história real? Aliás, existe essa diferença na vida?

  4. João Bosco

    Os piores crimes e pecados são os que praticamos no pensamento. Ou as coisinhas cotidiana, comesinhas, tributáveis que praticamos. Qual o castigo? A pergunta que me inquieta a alma, feita pelo o mesmo russo, Dostoievski

  5. Raimon Nix

    Quando cessarão as perguntas? Cada página me abre uma nova dúvida, cada livro me aumenta o vazio. Faminto vazio me impulsiona a novos livros. Outras perguntas vazias.

  6. Ivon Rabêlo

    “O que queres?”

  7. Neuma Brasil Xenofonte

    Perguntas sobre onde se projetam nossos medos, em que medida somos o próprio mal e quanto em nós é pura representação.

  8. André Balaio

    Para o leitor-esfinge: “Se eu te decifro, tu me devoras?”

  9. Erika Valença

    Esse conto – homens sem mulheres – de Murakami me martelou o juízo em diversos sentidos, mas algumas perguntas me deixaram em estado de: Oi? foi “Mas por que ele teve o trabalho de me ligar?” Houve muito mais coisas nas entrelinhas. Então fui ouvir Theme from a summer place de Percy Faith, que ele cita no livro e compreendi melhor. Mas confesso, se eu pudesse, tomaria uma cerveja com esse personagem. ❤ Sidney

  10. Wilson wilson

    Deim, um pouco complitado pra eu entender de primeira. Mais se escapar das mãos de … , sera fuzilado.

  11. Wagner Bezerra Pontes

    Agora que vi a imagem direito…hahaha tá muito engraçado o Sidney Rocha como bebê sendo dilacerado…hahahahahahahahahahahaha

  12. Wellington de Melo

    Para que seguir, para que seguir?

  13. Wagner Bezerra Pontes

    O último que li[Enquanto Agonizo] me perguntou: Porque eu fui escrito tão bem?! Como se faz pra ser escrito/lido e admirado?

  14. Astier Basílio

    como confiar na memória?
    foi a pergunta que me fiz ao ler meu último livro, “the sense of an ending”, de Julian Barnes

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