Kafka e o carnaval

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  Era um fevereiro gelado, mas não nevava na capital tcheca. Eu estudava noite e dia canibalismo linguístico. Era o tema da minha tese de doutorado que deveria ser defendida em três meses no Curso de Pós-Graduação em Sociologia, da Universidade de Praga. Mas não era fácil eu me concentrar nos estudos, sempre fui muito dispersiva.

     Certa manhã, numa das minhas muitas idas até a janela para ver como ia a vida lá fora, deparei-me com um pequeno grupo de pessoas fantasiadas, dançando alegremente ao som de uma bandinha. Dei-me conta de que era carnaval! Não poderia perder a festa, logo eu brasileira de pai e mãe.

     Corri até o meu armário para ver se conseguia bolar uma fantasia com as roupas que eu tinha. Peguei um macacão velho, que eu usava para dormir, meio avermelhado, meio marrom, de cor indefinida, para dizer a verdade. Recortei pequenos círculos com as folhas A4 brancas que seriam usadas na minha tese e os colei no macacão. Coloquei luvas coloridas. Pus um passa-montanhas verde-escarlate que eu usava para esquiar e enfiei neles dois grandes galhos secos que peguei na rua. Estava pronta a minha fantasia de joaninha estilizada!

    Infiltrei-me no bloco e dançamos a tarde toda, circulando pelas avenidas e ruelas de Praga. Logo souberam que eu era brasileira e pediram que eu cantasse marchinhas de Carnaval: “… foi a Camélia que caiu do galho/ deu dois suspiros e depois morreu…/”, eu cantei e todos cantavam atrás, “… e depois morreu…”. Lá pelas tantas, começou a chover forte, cada um correu para um lado e eu, batendo o queixo de frio, abri a porta da casa mais próxima e entrei. Deparei-me com um jovem sentando diante de uma mesa coberta de livros, papéis e canetas. Ele não parecia assustado com a minha presença; ao contrário, me olhava de alto a baixo com curiosidade. Naquela altura, os poás da minha fantasia tinham caído e os galhos, presos no meu passa-montanhas, estavam completamente tortos. “Era para ser uma joaninha… estilizada, mas chove muito”, eu lhe disse em tcheco tentando explicar o meu estado deplorável. “Parece um inseto estranho, repugnante…”, ele me disse em alemão. “Você é estrangeira”, sentenciou também em alemão. Contei em tcheco de onde eu era e o que fazia em Praga etc., etc., pois sou prolixa.

    Ele me disse que era escritor, ou que queria ser escritor, apesar do seu pai… mas ele estava sem inspiração, pelo menos foi o que me contou. Disse que só conseguia escrever pequenos fragmentos, contos que nunca chegavam a um desfecho. “Sei o que é isso”, desabafei. Disse que minha tese também não tinha desfecho e que eu buscava desesperadamente por um. Nesse momento, ele me olhou sério, transfigurado, para dizer a verdade, e berrou: “Se o que você procura aqui é um desfecho para o seu texto, saiba que está no lugar errado! Pode ir embora, já tomou muito do meu tempo”. Não pensei duas vezes, abri a porta e parti a passos largos sob a chuva até a minha casa.

Não demorou muito e vi nas vitrines das livrarias um livro chamado “Die Verwandlung”, que tinha um desenho na capa que mais parecia a minha fantasia de carnaval. Texto e ilustração eram de um jovem escritor, Franz Kafka, bem aquele da ruela de Praga. “Safado”, pensei indignada, “depois que eu o inspirei, me mandou embora… ele com livro pronto e eu com a minha tese ainda por terminar…”, e fiquei remoendo essa história o dia inteiro.

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Dirce Waltrick Do Amarante

Publicou livros como Cenas do teatro moderno e contemporâneo, Pequena biblioteca para crianças e As antenas do caracol.