“Eu sumir? Como que eu posso sumir, se primeiro eu sou eu e fico aí me vendo sempre?”

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   Terceira crônica, de cinco, de Sidney Rocha, sobre as perguntas que nos fazem os livros. Na semana anterior, nossos leitores puderam enviar respostas, no espaço para comentários, lá embaixo. Dá tempo: responda àquela e a esta pergunta de hoje. Quem sabe você não recebe uma boa surpresa dentre nossos lançamentos, em casa? 
Boa pergunta. Participe.

***

   1.
   Meus ritos religiosos envolvem ir de manhã à padaria, gastar 9,60 por café, pão&manteiga, ovo e 50g de queijo. Tem se reduzido a isso toda minha transcendência. Se quebro essa liturgia, fico por conta dos deuses da rua Amélia, e tudo ou quase tudo me ocorre, a mim e ao Recife.
   Ontem, o homem da padaria estava cansado, ele me disse. Minha amiga professora estava cansada, cansada de nada, e isso vem a ser todas as coisas, mas cansada, ela me falou. Estão todos cansados. Sem sono, e cansados. Com sono, e cansadas. Tem gente cansada até da alegria, do carnaval. Estou cansada, disse a filha da chiquita-bacana.
   Ninguém mais descansa. O homem da padaria, a professora, a menina, o psicanalista, meu amigo fundamentalista das startups… estão todos presos ao inferno da atividade, do foco, da eficiência. Dia desses se descobriu Dercy Gonçalves enterrada de pé. Pra nunca descansar?  “Oh Bartleby! Oh Humanidade!” Tem muita religião no mundo. De todo tipo. Agora essa: a religião imanente do cansaço, vem Handke vender à minha porta.
   E eu que não sumo. Eu que ando buscando epifanias. Pessoas, nesse estágio, perdem o dia se pegas na contramão por um livro qualquer. Na verdade, basta uma frasezinha besta, de mau-jeito, e a coluna da pessoa está desgraçada. Uma sentençazinha de nada ali em Bartleby já me levou ao esparadrapo-terapeuta. E se a pobre alma tem de escrever pra viver, o bloco não sai, adeus-carnaval. Isso porque li hoje Sociedade do cansaço, do coreano-alemão Byung-Chul Han. E porque ele está tão certo a cada parágrafo, me deixou inviável para quase tudo e essa crônica terminará por ser uma daquelas cartas mortas do Dead Letter Office, anunciadas ao final do livrinho de Wall Strett, de Melville.
   Então não fui à padaria hoje e, de novo, o dilúvio. Não há energia no bairro. Resta checar o saldo e o email pelo telefone. E ninguém transferiu nada para minha conta. Não estou falando de clientes, eu não os tenho, falo dos amigos antes tão generosos. Devem estar cansados. Dá pra ver a pontinha de um email, pelo smartphone: convite pra palestra em Aracaju. Quem quererá me ouvir em Aracaju? Que religiões esquisitas são essas? Mas se a missão é entregar meu esqueleto em Aracaju, eu entregarei. “Depois o resto se aguenta-se como for, mas a entrega já foi feita, não sou homem de parar no meio.” Lembrei-me de Getúlio Santos Bezerra, o sargento Getúlio, do Ubaldo. E terminei me deparando com o mote da coluna de hoje.

SERIETRES

   2.
   Sargento Getúlio é Hamlet melhor do que qualquer Hamlet. Quer ver?
   “Morrer é como dormir e dormindo é quando a gente termina as consumições, por isso que a gente sempre quer dormir. Só que dormir pode dar sonhos e aí fica tudo no mesmo. Por isso é que é melhor morrer, porque não tem sonhos, quando a gente solta a alma e tudo finda. Porque a vida é comprida demais e tem desastres.” 

Sem comentários, não é? Ou você prefere a continuênça — que se não explica o cansaço do mundo explica a covardia?

   “Quem é que aguenta esse peso, nessa vida que só dá suor e briga? Quem agënta é que tem medo da morte, porque de lá nenhum viajante voltou e isso é que enfraquece a vontade de morrer. E aí a gente vai suportando as coisas ruins, só para não experimentar outras, que a gente não conhece ainda. E é pensando que a gente fica frouxo e a vontade de brigar se amarela quando se assunta nisso, e o que a gente resolveu fazer, quando a gente se lembra disso se desvia e acaba se fazendo nada. Padre, ô reverêndio, em suas rezas, lembre dos meus pecados”.

   Meu osteopata já me proibiu João Ubaldo duas vezes.

   Mas é desse tesouro de bestialidades santas de Sargento Getúlio a pergunta mais incansável, poderosa e implacável da literatura brasileira. É daquela hora, quando informam ao sargento do quanto a política mudou, e porque ele não deve seguir até Aracaju: melhor pra todo mundo é que ele suma, por uns tempos. Olha com qual pergunta o homem responde:
   “Eu sumir, eu sumir? Como que eu posso sumir, se primeiro eu sou eu e fico aí me vendo sempre, não posso sumir de mim e eu estando aí sempre estou, nunca que eu posso sumir. Quem some é os outros, a gente nunca. (…) Quero ver esse bom em Aracaju que me diz que eu não posso, porque eu sou Getúlio Santos Bezerra e igual a mim ainda não nasceu. (…) Corro, berro, atiro melhor e sangro melhor e luto melhor e brigo melhor e bato melhor e tenho catorze balas no corpo e corto cabeça e mato qualquer coisa e ninguém me mata. E não tenho medo de alma, não tenho medo de papafigo, não tenho medo de lobisomem, não tenho medo de escuridão, não tenho medo de inferno, não tenho medo de zorra de peste nenhuma.”
   Não dá para se cansar diante de tanto poder. Viva sargento Getúlio. Sua pergunta vale por mil religiões e um balaio de psicanálise.
   Me leva, Aracaju.
   Né, Amaro? Né, Amaro?

***

   E você, me conte aí: que perguntas terríveis fazem os livros que você lê?

Sidney Rocha

É autor dos romances Fernanflor (2015) e Sofia (2014), além dos livros de contos O destino das metáforas (2011, Prêmio Jabuti) e Matriuska (2009), todos editados pela Iluminuras.

4 Comentários

  1. Neuma Brasil Xenofonte

    Cansados, resta-nos indagar:
    – A quem interessa que sigamos cansados?
    – teremos nós nos tornado meros cumpridores de ordens?
    – Quanto de forças ainda nos restam pra mudar essa situação?
    – Em que circunstância nos sentiríamos, apesar de cansados, felizes!
    Sargento Getulio cumpre o papel de acordar a consciência individual… O Que Sou, quando apenas obedeço. Quem sou, quando afirmo minha vontade. Sumir? Como eu posso…

  2. Tatiana

    Sempre me pergunto o que é verdade num livro, quando, é claro, o leio de verdade. Por exemplo, depois dessa crônica fantástica tua, me deu vontade de mandar abraço pro Amaro.

  3. Wellington

    Literatura é sempre um “exercício de abismo”, no final.

  4. Wagner Bezerra Pontes

    Tudo que sempre pensei é que os livros lidos e toda a procura minha está em fazer desse paralelo desses sonhos de que tanto durmo pra fingir que morri pois como Getúlio quem aguenta essa vida dura? Não há medo de morrer.
    Há medo de não consegui ler por cansaço da vida.

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