O Capitalismo é (também) nonsense

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Relendo agora a versão final da minha tradução integral do romance infantojuvenil Sylvie and Bruno/Sylvie and Bruno Concluded, de Lewis Carroll, me deparei novamente com a história do capitalismo nonsense, imaginada por esse escritor. Escrita em versos, essa história visa explicar a diferença entre as palavras “conveniente” e “inconveniente”…

O capitalismo funciona, mas é conveniente para uns e inconveniente para outros!

PEDRO E PAULO

“Pedro é tão pobre”, disse o nobre Paulo,

  “Mas eu fui sempre seu melhor amigo:

E embora de pouco eu possa dispor,

  Ao menos algo devo lhe emprestar.

São raros os que compartilham bens,

  Exceto por motivos egoístas!

Mas eu me solidarizo com Pedro,

 

E CINQUENTA LIBRAS EU LHE OFEREÇO!”

Pedro se sentiu feliz ao saber

  Da generosidade do seu amigo!

Assinou com alegria o contrato

  Prometendo um dia saldar sua dívida!

“Não vamos”, disse Paulo, “exagerar:

Mas é melhor marcarmos uma data:

  Assim, seguindo o conselho de um sábio,

Às doze, do dia quatro de maio.”

 

“Mas agora é abril!”, Pedro protestou.

  “Dia primeiro, para ser sincero.

Cinco semaninhas passarão logo,

  Nem terei tempo para me coçar!

Dê-me doze meses para comprar

  E vender e especular à vontade.”

Disse Paulo: “Não posso mais mudar:

  Às doze, do dia quatro de maio.”

 

“Sim, sim!”, disse Pedro com um suspiro.

  “Passe-me o dinheiro, que já me vou.

Eu fundo uma Sociedade Anônima

  E ganho logo umas libras honestas.”

“Mortifica-me”, disse Paulo, “parecer cruel,

  O dinheiro lhe será emprestado:

Porém, antes de uma semana ou duas,

  Não será deveras conveniente.”

 

Semana após semana o pobre Pedro

  Veio e retornou cheio de aflição;

Pois ouvia sempre a mesma resposta:

  “Não poderemos resolver isso hoje.”

E então as chuvas de abril cessaram…

  E cinco breves semanas voaram.

E a reposta que ele ouvia era a mesma:

  “Não me parece a hora conveniente!”

 

Em maio o pontual amigo Paulo

  Veio ao meio-dia com o advogado.

“Achei melhor convocá-lo”, ele disse,

  “Nunca é cedo demais para essas coisas.”

Pedro tremeu feito uma vara verde:

  Arrancou suas madeixas graciosas:

E em pouco tempo seu cabelo louro

  Havia se espalhado no assoalho.

 

O advogado estava perto dele,

  Sentia pena, mas nada dizia:

As lágrimas tremiam nos seus olhos,

  E segurava o contrato assinado:

Mas então o dever falou mais alto,

  Reassumiu sua postura habitual.

“Eis o que a lei determina”, ele disse:

  “Pague ou o processo seguirá seu curso!”

 

Comentou Paulo: “Como eu me arrependo

  De tê-lo intimado nesta manhã!

Considere, Pedro, seu modo de agir.

  Careca você não será mais rico!

Acredita que arrancado os cabelos

  Suas dívidas vão desaparecer?

Eu lhe imploro: evite essa violência,

  Ela só aumentará meu sofrimento!”

 

“Como seria eu capaz de infligir”,

  Disse Pedro, “a esse nobre coração

Uma dor desnecessária? Contudo,

  Por que o rigor na aplicação da lei?

Embora possa ser legal pagar

  O empréstimo que nunca recebi,

Esse tipo de negócio parece-me

  Hoje extremamente inconveniente!”

 

“Minha nobreza de alma é quase nada,

  Comparada com a de outros aqui!”

(Paulo enrubesceu, e bastante humilde

  Não tirou os seus olhos do assoalho.)

“Essa dívida vai devorar tudo

  E tornar esta vida uma desgraça!”

“Não, Pedro!”, respondeu logo seu amigo,

  “Não deve amaldiçoar o destino!”

 

“Você tem o que comer e beber:

  É respeitado na sociedade:

E em uma barbearia, suponho,

  Costuma frisar suas belas suíças.

Embora não vá alcançar a nobreza –

  — No seu maior grau, devo esclarecer –,

O caminho da honestidade é simples,

  Mas ele é bem pouco conveniente!”

 

“É verdade”, disse Pedro, “estou vivo:

  Mantenho a minha posição no mundo:

Uma vez por semana ainda posso

  Untar e frisar as minhas suíças.

Mas o meu patrimônio é reduzido:

  Meus rendimentos estão exauridos:

E mexer no capital, convenhamos,

  É neste momento inconveniente!”

 

“Mas pague seus débitos!”, bradou Paulo.

  “Pague agora seus débitos, meu caro!

O que importa se devorará todo

  O seu denominado ‘patrimônio’?

Você já está uma hora atrasado:

  Mas cederei à generosidade.

Sairei perdendo, mas e daí?

 

NÃO VOU MAIS COBRAR DE VOCÊ OS JUROS!”

“Que bom! Que legal!”, Pedro então gritou.

  “Contudo, venderei minha peruca…

O alfinete da gravata também…

  E o piano de cauda e o meu leitão!”

Todos os seus bens ganharam asas:

  E enquanto cada tesouro sumia,

Suspirava ao ver a situação

  Cada dia menos conveniente.

 

Semanas, meses, anos passaram:

  Pedro não era mais do que pele e osso:

E certa vez ele disse chorando:

  “Paulo, e aquele empréstimo prometido?”

Paulo disse: “Vou lhe emprestar um dia

  Todo o dinheiro que tenho poupado…

Ah, Pedro, você é um homem feliz!

Tem deveras uma sorte invejável.”

 

“Estou ficando obeso, como vê:

  Porém raramente me sinto bem:

Hoje já não me alegro tanto ao ouvir

  O sino anunciar o meu jantar:

Mas você saltita como um menino,

  Tornou-se muito esbelto e desenvolto:

O sino do jantar é uma alegria

  Para esse seu apetite tão sadio!”

 

Disse Pedro: “De fato, estou ciente

  Desse meu estado de felicidade:

Contudo, eu poderia dispensar

  Esse bem-estar que agora possuo!

O que você chama de meu apetite

  É apenas o sofrimento da fome:

E, quando nenhum prato está à vista,

  O som da sineta é só de pesar!”

 

“Meu paletó nem espantalho quer:

  E você não verá botas como estas.

Ah, Paulo, uma nota de cinco libras

  Bastaria para me dar alento!”

Disse Paulo: “Estou bastante surpreso

  De ouvi-lo hoje expressar-se nesse tom:

Temo que não tenha compreendido

  Os benefícios da situação!”

 

“Você não come nunca além da conta:

  E está pitoresco nesses farrapos:

Desconhece a triste dor de cabeça

  Que acompanha um maço qualquer de cédulas:

E sobra-lhe tempo para o cultivo

  Da satisfação, que é o que lhe interessa…

Você não percebe quão confortável

  É atualmente o seu padrão de vida!”

 

Disse Pedro: “Não poderei sondar

  A fundo essa sua personalidade,

Porém no seu caráter descobri

  Ao menos uma grave inconsistência.

Você costuma poupar longamente

  Quando existe uma promessa a cumprir:

No entanto, quanta pontualidade

  Na sua cobrança implacável da dívida!”

 

“Nunca somos cautelosos demais”,

  Disse Paulo, “ao dispormos das riquezas.

Com as contas, como você comentou,

  Sou mesmo a própria pontualidade.

Devemos cobrar sim o que nos devem:

  Porém, quando se trata de emprestar,

Devemos decerto refletir bem

  E escolher a hora mais conveniente!”

 

Aconteceu um dia, quando Pedro

  Roía sentado a crosta de um pão,

Paulo vir animado lhe falar,

  Agarrando-lhe a mão amavelmente.

“Sua mesa”, ele disse, “é muito frugal:

  Assim, meu caro, para não ferir

Seu orgulho trazendo aqui um estranho,

  Deixei meu advogado à espera lá fora!”

 

“Você com certeza deve lembrar-se

  De quando sua riqueza foi sumindo:

Todos caçoaram da sua pobreza,

  Menos eu, que não agi como os outros!

E quando você, Pedro, perdeu tudo

  E foi reduzido a algo desprezível,

Eu não preciso pedir que recorde

  Que fui então solidário com o amigo!”

 

“O conselho que lhe dei naquela época,

  Cheio de sabedoria e finura:

Dado de graça, embora eu na verdade

  Pudesse ter tirado disso um ganho!

Mas me abstenho de mencionar

  Os feitos que poderia citar…

Pois me gabar, Pedro, é o tipo de coisa

  Que eu não aprecio nunca fazer.”

 

“Porém, como é vasta a soma total

  De todas as gentilezas que fiz,

Desde os dias já longínquos da infância

  Até aquele empréstimo em abril!

As cinquenta libras! Fique sabendo

  Que elas consumiram minha poupança:

Mas tenho neste peito um coração,

 

E VOU LHE EMPRESTAR MAIS CINQUENTA LIBRAS!”

“Nada disso”, Pedro disse com lágrimas

  de gratidão em ambas as bochechas:

“Ninguém se lembra melhor dos seus feitos,

  Passados e recentes, do que o seu amigo:

E essa nova oferta, devo admitir,

  É verdadeiramente generosa…

Contudo, aproveitar-me agora dela

  Seria bem pouco conveniente!”

 

(Em tradução de Sérgio Medeiros, o romance de Carroll será publicado, na sua versão integral, pela editora Iluminuras.)

Sérgio Medeiros

É autor e tradutor. Publicou, entre outras obras pela Iluminuras, Totens, O desencontro dos canibais e Fim de tarde de uma alma com fome.