Que animal é preciso que adore? Que santa imagem nos agredirá?

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Esta é a penúltima crônica da série “Que perguntas fazem os livros terríveis?”, de Sidney Rocha. É sobre a vida da rua pra fora ou a vida mais para dentro. Só lembrando, comente lá embaixo e ganhe o livro-lançamento da Iluminuras.
O sorteio será em breve.

***

   1.
   A crônica “Extremo espectador”, de Pellanda, no sítio da Gazeta do povo, fala de um flaneur de Curitiba. É sobre o [desac]ato de caminhar a esmo.
Andar é sintoma antigo das loucuras. Na verdade, nos prontuários, o doido deambula. Quem anda é o poeta: Andar enquanto consente que seja a noite andada/ porque o poeta, indiferente, /anda por andar somente, /não necessita de nada. Neste caso, a poeta Cecília Meireles. Tenho-a de memória, da minha oitava série, quando a poesia andava nos livros escolares. Hoje não mais.

   Não falo dos doidos da pedra, do crack, mas dos nossos doidos, antigos, de jogar pedra e rasgar dinheiro – como se sabe na minha terra. Não o doido cagando e andando por aí, mas o cara com o olhar luminoso por detrás do seu sofrimento, e por essa razão temos medo dele. Daqueles que vivem longe do pavor e dos pecados, e por isso as crianças de Juazeiro do Norte ou de qualquer aldeia-mundo do mundo se enamoram deles e nunca os esquecem. Se a Curitiba de Pellanda ainda registra seus doidos-de-rua, é ainda uma cidade onde se pode andar, menos mal.
   Pois o flaneur de Pellanda é o artista da mobilidade: anda-por-andar-somente. Fiscal da lei do uso e ocupação do solo, da subjetividade, a céu aberto.
   Bem está ali, pelas mãos do cronista, portanto. A crônica é lugar aberto como a rua. Já o romance me parece às vezes o lugar fechado. Mas em Fernanflor [romance, 38 reais, Iluminuras], a rua é o templo; o templo, a rua.
   Hoje, Pellanda, você vai concordar: a rua é o facebook. Onde estão todos, espectadores extremos, atirando pedras. E mais cagando que andando.

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   2.
   Arthur Rimbaud andava e andava. Eu pensava nele enquanto caminhava pelos andes do Peru. Mascava coca e pensava nas Iluminuras.
   Alguns espíritos nos dão a sensação de toda a espécie valer a pena.
   Um deles é Arthur Rimbaud.
   Ele me ensinou a não levar ao mundo meus dissabores nem minhas traições. Lembrava-me dele, há pouco, enquanto descia pelas escadas. Pensava nas perguntas que eu mesmo tenho me feito. A luta de cada dia, o dia de cada dia, o dia de hoje cada dia há de ganhá-lo. As constatações de João Cabral seguiam comigo.
   Deu pra trovejar no Recife. Caminhando à padaria, resolvo voltar e pegar o livrinho de Rimbaud. Subo. Agarro-o. Talvez nem o abra. Gosto de caminhar com uma dessas edições de bolso à mão – vulgatas vulgares, sem a arrogância do couché, a tolice das capas duras – como as pessoas caminham com seus cães ou gatos. Desço.
   Café. Ovo. Pão. Queijo. Folheio Rimbaud. Por alguma mágica, as horas são minhas outra vez, e não estão alugadas ao trabalho e às pessoas. Sou: eu e o livro. Posso abri-lo simplesmente porque qui-lo – tipo de imanência que gera em mim alguma transcendência.

   Havia parado com isso de andar com livros. De vez em quando baixava o Tolstói, ou outro caboclo messiânico, e eu terminava doando o exemplar pra desconhecidos. Certa vez, dei um livro e voltei pra resgatá-lo, envergonhado.
   “Tome dez reais por ele”, eu disse ao cara, antes de ele cruzar o quarteirão. Me devolveu meu O livro da selva, de Kipling e nunca mais nos vimos, eu acho, não decoro rostos. Para ele, devo ser o doido que anda pelo bairro e distribui livros. E toma. Ou recompra. Que almas há sem defeitos?
   Leio Rimbaud em papel jornal. É uma edição onde o francês é quase hebraico para mim, mas Paulo Hecker Filho traduz e me salva. Busco nUne saison en infer carne para entregar à crônica de hoje e penso nas perguntas que fazem os livros valerem à pena. Caminho por dentro do livrinho e não preciso ir para além da página 29.
   Rimbaud me atinge. Num único parágrafo, tudo.
   A quem me alugar? Que animal é preciso que adore? Que santa imagem nos agredirá? Que corações partirei? Que mentira devo sustentar? Em que ânimo avançar?

   Estou de novo louco e generoso. Preciso doar o livro. Me desfazer dele é como pedir perdão. Não sei. Ando de volta. O mundo marcha, Rimbaud dizia. Doidos com tantas certezas caminham pela rua Amélia sob trovões. Fernanflor passeia. O dia vai se esticar o quanto possa, cansativo, vulgar, vazio. Não importa: não o amaldiçoo mais. Isso passou. Avanço. Hoje saberei saudar a beleza.

   ***
   

Sidney Rocha

É autor dos romances Fernanflor (2015) e Sofia (2014), além dos livros de contos O destino das metáforas (2011, Prêmio Jabuti) e Matriuska (2009), todos editados pela Iluminuras.

5 Comentários

  1. Neuma Brasil Xenofonte

    Tem doido de tudo quanto é tipo e cor e credo. Alguns conheço sob a roupagem de um personagem de romance…vivem por aí. Enquanto os leio, viajo!

  2. Wagner Bezerra Pontes

    Realmente as redes sociais é a rua. Mas digo que cagar alivia a alma agoniada…hahahaha 😛

    Abraço!

  3. Ivanilde Morais de Gusmão

    Por que o animal homem inventou essa coisa fantástica, a literatura?

  4. Antonio Moura

    A arte. O mundo como interrogação.

  5. Chicosaboya

    Bunito isso aí, amigo. Justo na ressaca, no oco que fica do Ecovazio.

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