“Onde está a humanidade?”

topo_sidney

  Esta é a quinta e última crônica de Sidney Rocha para a série “As terríveis perguntas que fazem os livros”, que circulou aqui no blog às sextas-feiras. Difícil saber qual delas tocou mais nossos leitores, de tão lindas.
  Deixe lá embaixo seu comentário e concorra ao livro-lançamento da Iluminuras, que sortearemos na próxima sexta. Dá tempo. Compartilhe com os amigos. Visite nosso blog. Leia nossos colunistas. Acesse as crônicas anteriores dessa série, de Sidney Rocha.
Gratos, Sidney. Sabemos que você vai inventar mais coisas, então esperamos vê-lo mais vezes por aqui. Pensamos ser esse também o desejo dos nossos leitores.

________

   1.
   A semana começou com o telefonema, o voo, os prognósticos, o abraço, a fragilidade da vida. Alguns não vemos, mas há gravidade no que ocorre e naquilo em suspenso, ali, no segundo antes de a vida cair por um lado ou se reinventar por outro. Estamos como barcos no seco, como escreveu no seu poema Vladímir Maiakovski para outro Vladímir, o Lênin. Ou estamos mais ao barco do amor, que o mesmo poeta deixou espatifado contra a rotina no seu full contact final com o mundo. “Inútil a lista de dores.
   Ah, Vladímir, como tu, desejamos ser amados: “Lília, ame-me”.
   E, se somos humanos para além do umbigo, queremos os nossos o melhor possível, mesmo sem nossa arrogante presença: “Ao governo: minha família são Lília Brik, minha mãe, minhas irmãs e Verônica Vitoldovna Polonskaia. Caso torne a vida delas suportável, obrigado.
   A vida suportável.
   Tolo Mark Zuckerberg: quantos botões de reação a vida vai apertar para nos fazer entender, afinal?

***

   Tenho visto filmes demais. Numa das fitas, o homem luta contra o urso. No outro, a mulher põe todos para chorar enquanto vende esfregões. Não, não falo de full contacts sexuais, mas esfregões de chão. Não me recordo mais do enredo de nenhum deles, não me preocupo com isso. Gosto da vulgaridade de perder tempo com filmes populares. O mal gosto de Hollywood me comove. É a indústria de verdade. Hollywood sabe quando o olho brilha, o minuto em que a lágrima cai. Se o filme é de segunda, a emoção é de terceira, de quarta? Não penso agora. Hollywood pensa e sente por mim. Hollywood sabe. Hollywood não erra.

 

12784517_982524065129019_288528822_n

 

   2.
   Entrei na sala de projeção para pensar em nada. Triste zen-budismo o meu. 58 reais custou meu cinema transcendental. O estacionamento conta. Pagamos pra deixar coisas paradas. Em estado de museu. Estagnadas, são a repetição sem fim.
   As notícias lá fora me faziam pensar em quem aguenta tanta realidade. Mas Hollywood insiste nas velhas histórias repetidas baseadas na vida como ela é. Eu pensava em médicos, em longas esperas, nas pessoas amadas. pensava em D’Ardelo, personagem de Kundera, nA festa de insignificância, encontrando charme e beleza diante do intolerável do mundo — do mundo doente, como diria Fernanflor.
   Daí o homem do urso reaparece do reino dos mortos, da víscera da terra ou de um cavalo. Ou o menino do quarto, espécie de Mogly porém mais tolo que Mogly, cumprimenta a pia, a cama, a mãe violentada, o violentador, o mundo tolerável.

   Eu voltava a me lembrar de Kundera, do filme/livro da insustentável leveza. Pensava como a vida de verdade requer certa delicadeza perante os acontecimentos, um não-pensar ou airosidade, uma reação por se esboçar no campo suspenso onde o destino vai inexoravelmente pressionar o botão.
   A vida requer ignorância e inocência.
   Então me lembrei de Orhan Pamuk, a Turquia de Pamuk e o Museu da inocência, do cinema sentimentalão e vulgar onde o narrador termina por se enfiar também. Ele é o tipo contemporâneo, indeciso sobre o amor e admirando o próprio umbigo.
   “Não sei de onde vêm”, respondo para mim mesmo. Refiro-me aos pensamentos que insistiam, na certa (e incerta) descrença, nas perguntas mortais que me faço sem piedade, nas frágeis soluções de Tarantino em seu péssimo faroeste.

***

   Volto para a casa e retiro dez livros da estante e os coloco na cama e durmo em torno de monstros. Antes, leio Kundera: “O amar, outrora, era a festa do individual, do inimitável, a glória do que é único, daquilo que não suporta nenhuma repetição. [….] E nós vamos viver, em nosso milênio, sob o signo do umbigo.”

   Pela manhã, o celular me acorda. Atendo. As notícias me fazem permanecer na cama. Ali, no Museu, onde as páginas 282 e 283 abrem a bocarra para engolir o Rúdin, de Turguêniev, ouço algo batendo contra o metal da antepenúltima linha, e vejo retinir a questão: “Onde está a humanidade?”
   Perguntas como essa de Orhan Pamuk são como barcos de Maiakovski, mas na tempestade. Quer dizer: se você souber embarcar neles, tudo bem. Se não, bye.
   As notícias dão como certo o maralto: haverá mais voos. Mais exames. Mais vida. Mais abraços. A fragilidade da vida é também a fortaleza da vida, Vladímir deve concordar.
   A vida é sobre tornar a vida suportável.
   Estou convencido de ter embarcado pelo lado certo, hoje.
   Mais vida e mais abraços pra você também, meu velho amigo.

***

Sidney Rocha

É autor dos romances Fernanflor (2015) e Sofia (2014), além dos livros de contos O destino das metáforas (2011, Prêmio Jabuti) e Matriuska (2009), todos editados pela Iluminuras.

7 Comentários

  1. Neuma Brasil Xenofonte

    Onde está a humanidade? A vida é sobre tornar a vida suportável… isso pode significar ir além do próprio umbigo. Sociedade hedonista!

  2. Wagner Bezerra Pontes

    Ah quase esqueci de dizer, sou louco pra ler o Rúdin, de Turguêniev, O museu da Inocência de Orhan Pamuk.

  3. Wagner Bezerra Pontes

    Sempre a humanidade entre páginas que se beijam e abraçam num livro fechado a espera do olhar de leitor acordado pela luz do sol num dia de domingo. Olhos de ressaca areias que escorrem de nosso umbigo.

  4. Gílson Modestp

    Adorei suas reflexões Sidnei, são bem coerentes…

  5. André Balaio

    “A vida é sobre tornar a vida suportável”. Bela crônica. Fiquei emocionado.

  6. Bruno Liberal

    Muito bom, Sidney. Volte logo.

  7. Erika Valença

    Sidney sempre me comove por essa simplicidade reflexiva e densa. Paradoxo? não, Sidney Rocha sempre no seu melhor.

Os comentários estão fechados.