O tio circense de Céline

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 Estava no meio da biografia que escrevia sobre Louis-Ferdinand Céline, quando soube da sua morte. Foi um duplo choque: perdia um amigo e, justamente, antes de eu ter acesso ao seu bem mais precioso: as cartas trocadas entre ele e Heiddeger sobre o nazismo. A única coisa que eu sabia a respeito era que as cartas estavam guardadas entre as páginas de seu livro A vida e a obra de Semmelweis.

   Bem, minha biografia sobre o escritor terminava prematuramente aí: … morreu de aneurisma em 1o de junho de 1961.

   Alguns anos depois, fiquei sabendo que o tio de Céline, um que fugiu com um circo, se apresentaria aqui em Florianópolis. Ele integrava a trupe do Circo Orlando Orfei.

   Comprei ingressos, para mim e para o meu filho (que adorava espetáculos circenses), na primeira fila da arquibancada; queria ver de perto aquele tio extravagante e, depois, obviamente, tentaria falar com ele e colher, quem sabe, boas informações ou curiosidades sobre Céline.

   Vieram os palhaços, os malabaristas e também muita pipoca e suco de laranja. Finalmente, chegou a vez do tio de Céline se apresentar. Ele foi até o meio do picadero, vestindo um macacão dourado, e apertou um enorme botão vermelho e deu início ao show das águas dançantes, que subiram e desceram, foram para um lado e para o outro e rebolaram na nossa frente. De repente, meu filho disse: “Quero fazer xixi”. Abandonamos o show e fomos ao banheiro.

   Quando retornamos, não havia mais águas dançantes; no lugar delas, uma multidão corria pelo palco, enquanto outra se amontoava ao redor de alguma coisa.

   Perguntei a um dos espectadores o que estava acontecendo. Ele me disse que quando o homem de macacão dourado foi apetar o botão para dar fim ao espetáculo das águas, levou um choque, foi jogado longe, bateu a cabeça numa das cadeiras da arquibancada e morreu.

   Fomos embora, meu filho não entendeu direito o que aconteceu, me pediu para voltarmos ao circo um outro dia. Eu disse que faríamos isso, mas na verdade só pensava ir para casa e acabar de reler Morte a crédito.

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Dirce Waltrick Do Amarante

Publicou livros como Cenas do teatro moderno e contemporâneo, Pequena biblioteca para crianças e As antenas do caracol.