As receitas de Alice Toklas

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No fim da vida, Alice Toklas dava aulas de culinária na Rue Mouffetard, em Paris. Luci e eu, que nunca tínhamos dinheiro para pagar o curso e os gastos com a viagem, já havíamos desistido da ideia de nos matricularmos nele. Mas tudo mudou quando soubemos que Toklas guardava poemas inéditos de Gertrude Stein. Quem sabe, num tête-à- tête, não a convenceríamos de nos mostrar alguma coisa, de nos ceder algum poema…

Fizemos um empréstimo consignado com taxa de 3,59% ao mês e o valor dividido em 96 parcelas. Lá se ia parte do nosso salário, mas o investimento valia a pena.

Chegamos a Paris num dia chuvoso e frio. Luci ficou de cama e eu fui ao curso de culinária sozinha. Mas Toklas também estava doente e havia cancelado as aulas daquela semana.

Luci e eu tínhamos 15 dias em Paris, uma semana talvez fosse suficiente para conseguir nos aproximar de Toklas e ganhar a sua confiança, as suas confidências e os tais poemas da Stein.

Depois de uma semana, Luci já estava muito bem-disposta, e fomos assistir ao curso de Toklas. De fato ela era uma grande cozinheira e professora: aprendemos a fazer profiteroles, macarons de champagne e morango, uma autêntica sopa de cebola francesa…

Ao final de uma semana, engordei três quilos e meio e minhas calças não serviam mais, tive que comprar duas novas numa promoção da Samaritaine. Luci continuava magrinha e elegante… e perguntou a Toklas sobre os inéditos da Stein… Toklas arregalou os olho e disse “Não sei de nenhum poema… quem lhes disse isso? Bobagem…”. E o assunto parou por aí.

Voltamos para o Brasil sem nada além das receitas… das duas calças novas da Samaritaine… e das 95 prestações restantes do nosso empréstimo consignado.