Chama

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     Irene é filha de Antônio. Antônio é filho de Manuel. Manuel é um homem incompreendido. Árabe, imigrante. A língua, sua língua, não encontrou lugar. Manuel se ligava aos parentes com unhas e dentes. Antônio seu filho jamais aprendeu o árabe, e não queria escutar Manuel. Ria. Não sabia Antônio que o sentimento de incompreensão de seu pai o acompanharia tanto – espelhos. Antônio se sente incompreendido. Fala uma língua matemática como se estivesse a falar árabe. Irene não ri. Irene se esforça pra prender a língua do pai. Anos a fio dedicados à matemática. Irene prenha a língua de Antônio – pra quem se sinta compreendido? A certo passo da vida, Irene muda. Fica muda. Irene cruza um passageiro. Da outra terra conserva um sotaque. Irene não entende o que diz, e está cansada demais pra prenhar outra língua. É assim, fala, uma nuvem faz. Não chove. Seca. Irene começa a perceber o lado-dentro da velha matemática. Uma voz pensava a infância – trêmula. Cheia de medo, arranhava a garganta uma pequeno pássaro. Risca, arrisca. Passageira. Irene escuta o deserto – as vezes até compreender. Não exatamente o que foi dito. Irene abre a língua, prenha do ar em mal- entendidos. Irene, sua voz e o gosto pelo voo. Riscado.

Sylvia Diez

Imagem: Sylvia Diez