CRIANÇAS E LIVROS

banner_dirce-crianca

Quando se fala em crianças, algumas discussões vêm à tona; uma delas é a tão debatida formação dos pequenos leitores Diria que o contato com o livro, seja em casa, na casa do vizinho ou no colégio, é extremamente importante para a formação do leitor. Deixar a criança em liberdade entre os livros é essencial; ela os tocará, abrirá suas páginas aqui e acolá, talvez não leia uma história por inteiro, mas a apresentação entre o objeto livro e a criança já terá sido feita e, a partir daí, ele já não será mais um desconhecido.

Ater-me- ei à formação dos pequenos leitores brasileiros e, grosseiramente, irei dividi-los em duas categorias.

Para as crianças no interior e nas regiões pobres, o contato com o livro é difícil, as escolas e a cidade muitas vezes não têm biblioteca, as livrarias são quase inexistentes, se não inexistentes.

Para as crianças nascidas em cidades maiores, o contato com o livro físico não é um problema, o que faz delas leitores em potencial.

Mas, feito esse primeiro contato físico com o livro, os professores e os pais deveriam se preocupar em consolidar a relação entre ele e a criança. Sendo produto da cultura, a leitura requer alguma dedicação para que se possa vivê-la na sua plenitude.

Segundo Pierre Bourdieu, para se viver o produto cultural, “é necessário que os amantes possuam algumas disposições, adquiridas lentamente, envolvendo dedicação, afinco e cumprimento de obrigações”. Só a prática obrigatória, diz Bourdieu, pode conduzir ao verdadeiro deleite ou se o prazer é cultivado é irremediavelmente marcado pela impureza de suas origens”.

A cultura, conclui, não é um privilégio natural, ela precisa de incentivo. Os professores e os pais têm consciência disso. De fato, eles pensam na formação de leitores, mas, muitas vezes, não leem literatura e não conhecem literatura infantojuvenil, o que se torna um grande problema, pois além de não terem uma real familiaridade com o tema, eles não possuem um repertório de títulos para oferecer às crianças. E, por conta dessa falta de repertório, pais e professores ficam reféns das listas de livros, algumas impostas por programas governamentais, sem que, muitas vezes, eles sequer façam uma análise crítica daquilo que lhes está sendo oferecido.

Além disso, pais e professores ficam presos à faixa etária a que os livros se destinam, como se houvesse aí uma exatidão que não merecesse nenhum questionamento. É engraçado falar de um livro que se destina, por exemplo, às crianças de 0-5 anos, como se depois dos cinco anos a crianças tivesse uma epifania e passasse a ver o mundo de forma diferente. Isso é muito subjetivo, cada criança terá sua “epifania” numa determinada idade, ainda que muitos pedagogos e estudiosos insistam em dizer o contrário.

Parece-me ingenuidade pensar que uma criança não possa ler, por exemplo, um conto de Edgar Allan Poe, porque encontrará muita violência e temas inapropriados para a sua idade, como morte, assassinato etc. As crianças estão expostas a violências na vida diária delas, nos noticiários da televisão etc. Essas são violências do mundo real que precisam ser discutidas tanto quanto as violências ficcionais.

Quando se trata de literatura, de cultura de um modo geral, os adultos têm reservas e preferem não expor os pequenos a temas que eles estão cansados de conhecer. Essa reserva no tocante à literatura talvez ocorra porque, para discutir um livro com as crianças, é preciso que o adulto o tenha lido primeiro, e ele não “pode” perder tempo com isso.

Ler também requer tempo, que as crianças atualmente não têm mais e que nós, adultos, não nos preocupamos em criá-los, porque não gostamos de ler, ou melhor, não aprendemos a gostar de ler e, por conta disso, a literatura não é vista por nós como elemento importante para a formação das crianças. A literatura é vista como um luxo.

Se estamos tendo dificuldade de formar leitores é porque a literatura não faz de fato parte do nosso cotidiano. Portanto, não podemos ajudar as crianças se nós mesmos precisamos de ajuda.

GoyaArte: Goya