A Grande Barata Fumegante e o Astronauta Feliz.

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Era inevitável que isso acontecesse, mais cedo ou mais tarde: o casamento inter-racial! Certo dia, um misterioso astronauta (russo?, chinês?, paraguaio?, canadense?) se casou com uma misteriosa barata ardente. A inesperada cerimônia aconteceu numa estação espacial, e foi transmitida ao vivo para todo o Universo. A noiva apareceu em pé diante das câmeras, coberta dos pés à cabeça por uma espécie de burca azul que só deixava visível (se tanto) os seus lindos olhos, e assim permaneceu, rígida ao lado do futuro marido, ao longo da exaustiva cerimônia. A fumacinha que emanava da burca era muito discreta, branca, quase imperceptível. O noivo, curiosamente, usava um prendedor de roupa no nariz, como se não quisesse aspirar o cheiro da futura esposa. Então o sacerdote explicou para as câmeras que o noivo ainda não devia ouvir o “sim” da noiva, embora a noiva, talvez por nervosismo, estivesse falando “sim” sem parar, naquela sua linguagem peculiar, que era a fumacinha que emanava do seu corpo. Como a fumacinha não parava de ascender e o noivo não devia de modo algum aspirá-la antes de dizer ele próprio “sim” em língua humana, ele não teve outro recurso senão fechar o nariz com um prendedor de roupa cravejado de pedras preciosas. Também tirou os óculos (era míope) para não ver a fumacinha elevar-se infinitamente da burca azul da noiva… Só no momento de ouvir o “sim” oficial da noiva, ele finalmente abriria o prendedor de roupa e aspiraria livremente o ideograma perfumado lançado no ar pela sua esposa fumegante, ou ardente. A cerimônia se encerrou quando o feliz astronauta, casado agora para todo o sempre com a grande barata, pôs os óculos e depois lançou sobre a cabeça dos convidados o prendedor de roupa cravejado de diamantes.

(Extraído do livro inédito “Baratas Fumegantes & Menininhos Solitários”, de Sérgio Medeiros.)

 

Foto de esculturas infláveis de Cao Fei, Tam Wai Ping, Paul McCarthy e Tomas Saraceno em Hong Kong