Fragmento de uma carta pra você

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Há muito sabemos que o percurso de um dia se reconfigura ao ver uma banda passar, cantando coisas de amor.

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Em meio aos tumultos da vida, te enviei um convite (tanto extraviado como endereçado) a um intervalo para celebrarmos encontros. Uma espécie de tentativa de ter um fragmento de tempo que se sobreporia ao legível nos meus fragmentos. Encontro, posso iludir-me, marcado pela experiência atravessada pelo limite do livro. Do meu livro. Todavia, limite aqui não seria meramente um redutor do texto, seu fim abriria ao outro um convite para fora do enredo. Vivência estranhamente temperada por um angústia, que reivindicava discrição, somada à euforia do escrito lançado a outros desfechos.

     A angustia envergonhada vinha em razão de um luto mimado em achar-me dona do texto. Como se reivindicasse todas as errâncias da comunicação e, ao estragar todo o seu charme, atribuísse um valor único e verdadeiro daquela minha mais pura verdade que nunca terei segurança de ter tido ou de, um dia, alcançar.

Minha própria errância estaria desmascarada. O meu desencontro certeiro com o escrito marcava a entrado do outro no meu terreno mais íntimo.

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Foi quando a minha gente sofrida despediu-se da dor na linda noite de 15 de setembro num café que marca minha inscrição geográfica nesta capital candanga. Tomada não só pelo rastro do chai latte repetido nas horas de estudo vividas no jardim do Ernesto, surpreendi-me pela presença de vários que me disseram quem eu era outrora. A noite trouxe-me o cheiro da minha infância.

Inscrições de vida: da infância fui à juventude, faculdade, encontros inesperados, familiares queridos, alunos… Enfim, a um tipo de afeto que me constrange a dizer-me que me envergonho em receber.

(Meus detalhes me perseguem: costumo desaparecer em dia de aniversário – desde de que soube diferenciar o dia do meu aniversário – por vergonha semelhante).

A vida, mostrou-me esta noite, se passa no movimento entre as palavras. Em sua melodia. Como se o dia-a-dia exigisse uma distração ou alheamento para a construção do encanto de nossas estórias.

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Quisera eu que minha inscrição deste tempo fosse compartilhada com àqueles tantos abraços. Quando, para o meu desencanto, o que era doce acabou, invadiu-me um pesadelo das tantas dedicatórias que atingiram o mais alto grau da cafonice que um dia nunca imaginei alcançar. Ao tentar achar uma frase que fizesse jus a diferenciação daquele em meio aos outros, um traço a marcar sua singularidade, reconheci que breguice não tem limite.

Ao menos, não a minha.

Coloquem-nas, eu imploro, na quota das estranhezas afetuosas de uma pessoa emocionada.

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Enfim, para além do já dito e ainda tomada pelo entusiasmo, eis meu ponto nevrálgico: a temporalidade e o desejo. A temporalidade que denunciou um futuro repleto de passados nos quais o “tempo perdido” já é uma espécie de “tempo redescoberto”. E o desejo (do imoral ao libertador) que insiste em relembrar-me de sua diferença ao apático.

Cabe ressaltar que, mais do que nunca, senti que amizade é reconhecimento. E que a vida é feita de encontros.

Afinal, existimos, a que será que se destina?

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3 Comentários

  1. Izabel Romeza Chimelli

    Obrigada

  2. Leandro

    Definitivamente, foi uma noite especial!

  3. Janete Pinheiro

    A emoção contagiou a todos, principalmente a mim! Senti-me um curinga, pelo vies do sorriso, que não cessava em se presentificar, como marca em meu rosto.
    Luciana Salum, seu livro é lindo como poucos, e sua escrita é de todas as almas. Que seus fragmentos insistam em aparecer por todo o sempre!!!!
    Aguardamos ansiosos por mais!

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