Oficinas de criação literária

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Lembro que num verão escaldante em Petravinska, uma província no sul da Crimeia, que na época ainda pertencia à União Soviética, ofereci, a convite do então Ministério Cultural Soviético, uma oficina de criação literária. Foram duas semanas intensas, sala lotada de candidatos a escritor.

Entre eles, havia um chamado Daniil Kharms, jovem russo com cara de velho, que fumava freneticamente. Já no primeiro dia de oficina, levou-me um conto que escrevera e queria saber a minha opinião:

Havia um homem ruivo que não tinha olhos nem orelhas. Ele também não tinha cabelo, de modo que só poderíamos chamá-lo de ruivo condicionalmente. Ele não podia falar, porque não tinha boca. E também não tinha nariz. Não tinha sequer pés e mãos. Não tinha barriga, não tinha costas, e espinha dorsal também não, nem mesmo vísceras ele tinha. Ele não tinha nada! De modo que não está claro de quem estamos falando. Pois o melhor é não falarmos mais dele. *

O fato é que seu conto, se é que eu poderia chamá-lo assim, não oferecia os elementos mínimos de uma narrativa: personagem bem definida, enredo claro e objetividade, conforme eu mesma havia aprendido numa oficina literária que fizera anos atrás no Rio Grande do Sul com um grande escritor neozelandês.

Aconselhei-o a mostrar o conto a seus colegas de oficina; afinal, era bom ter leitores diversos que pudessem opinar sobre a obra; essa estratégia, aliás, eu também aprendera na tal oficina com o mestre neozelandês.

No outro dia, a partir das sugestões dos colegas, Daniil voltou com outro conto, “O encontro”:

Um dia um sujeito ia ao serviço mas no caminho encontrou outro sujeito que voltava para casa depois de comprar uma bisnaga polonesa.

É isso, sem tirar nem pôr.

Kharms não conseguia desenvolver minimamente uma narrativa, não tinha verve ou talvez ainda não tivesse encontrado a sua voz. Pedi que reescrevesse o conto, enfatizando que arte de escrever estava em reescrever, isso também aprendera na tal oficina no Rio Grande Sul.

No dia seguinte, entre uma baforada e outra de cachimbo, ele me mostrou outro conto, disse-me que abandonara de vez o homem ruivo, pois nem mesmo ruivo era, e deixara de lado o tal sujeito que encontrou outro sujeito…

Pus os óculos e li sua nova narrativa que começava assim:

Antón Mikháilovitch cuspiu, disse “ah”, cuspiu de novo, disse ainda “ah”, cuspiu de novo, disse ainda “ah”, e foi-se embora. E que vá com Deus. Eu faria melhor falando de Iliá Pávlovitch.

Iliá Pávlovitch nasceu no ano de 1893 em Constantinopla. Ainda moleque, foi levado a Petersburgo e ali cursou a escola alemã da Rua Kírotchnaia. Depois ele arranjou um serviço numa venda, depois se meteu em outra qualquer, e no início da revolução emigrou para o estrangeiro. Então, que vá com Deus. Eu faria melhor falando de Anna Ignátievna…

Nem precisei terminar o conto para saber que Daniil não tinha talento para a literatura, aconselhei-o a dedicar-se à pintura ou à música. Às vezes isso acontece, nem todos nasceram para ser escritores. Numa oficina em Zurique, por exemplo, tive um participante ainda pior do que Daniil, chamava-se Kurt Schwitters, se não me engano… mal sabia segurar a caneta. Já numa outra oficina, em San Francisco, conheci um tal Kenneth Goldsmith; desse nem quero falar, parece que está envolvido num imbróglio enorme e responde a um processo por plágio.  

*Minha oficina foi ministrada em russo, mas ofereço aqui, na tradução de Moissei e Daniela Mountian, os “contos” que Daniil me passou na tal oficina que ofereci em Petravinska.

Dirce Waltrick do Amarante

1 Comentário

  1. FREDERICO TAVARES BASTOS BARBOSA

    Ah… Se eu falasse russo… Faria sua oficina!

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