Quando a vida te fez bicho

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Uma vida é atravessada pela linguagem e pela possibilidade de tornar suas vivências, experiências. Narramos nossa existência.

Escolhemos palavras,

…nos faltam adjetivos, conectivos, às vezes verbos… vemos eloquência

(ou não).

Enredos estão à disposição da criação e em geral, a depender do empobrecido significante destinado à “personalidade”, conseguimos uma sombra a nos contemplar caso sejamos sobressaltados pela pergunta “quem é você?”.

“Qual é o seu nome?” é mais fácil.

“De onde você veio?” tende a me deixar um pouco mais zonza. “Vim de lá”, respondo sem hesitar servindo-me de Rosa.

(Justo eu que julgava não gostar de flores…)

Justo eu que me imaginava inatingível a sobressalto maior.

Produzir uma queda a jogar-me das alturas não pré-viu meu medo futuro de avião. O vôo pode ser pior que o tombo, digo hoje àquela menina a quebrar costelas antes do aprendizado da arte que amacia o chão.

Não houve dança, não houve música.

Sequer gemido pôde se fazer linguagem a conversar com a surda que enxugava o meu suor.

 

A cena é atravessada por seus próprios borrões.

Jamais atentando contra a ambiguidade de um vocábulo…

não houve vocábulo!

Dê-me um adjetivo? Verbo? Conectivo?

Não… ouve!

Ouço lembranças que compõem imagens.

As representações emprestam sons a reconstruir estórias.

 

O que houve?

Um corpo.

Um corpo indizível a indescrever sua humanidade.

Sequer carne, resto de corpo, fez-se presente na viagem.

Corpo desprovido de linguagem.

(“sempre soube que Lacan havia se enganado quando considerou o corpo exclusivamente como significante”, falaria sorrindo se houvesse riso)

 

Quando a vida fez do corpo o alojamento dos rastros de alguns signos…

(não há mais como saber,

não há como escrever)

… foi quando a vida te fez bicho.

 

Foto: Balada – Livro de 896 páginas atravessado por uma bala de revólver, que se aloja ali dentro à altura da página 700. Tiragem de 100 exemplares, 70 no calibre 38 e 30 no calibre 22. Livro, pólvora e bala. 225 X 165 X 6 cm, Nuno Ramos