O poema de Sylvia Plath é meu

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Conheci Sylvia Plath nos anos 1950, numa clínica de repouso no interior dos Estados Unidos. Dividimos o quarto por um tempo. Eu lia as minhas poesias para ela e ela sempre fazia comentários muito pertinentes. Lembro de uma vez que, supervisionadas pelos enfermeiros da clínica, pois mexeríamos com instrumentos cortantes, ajudamos a preparar a ceia de Natal. Era uma espécie de terapia ocupacional.

Sylvia amassava batatas com uma colher (ela tinha uma obsessão suicida e não lhe davam instrumentos pontudos ou cortantes) e eu cortava cebola para a salada com uma faca Ginsu (ao contrário da Sylvia, eu tinha pânico de morrer), quando, zapt!, lá se foi parte do meu dedo. Gritei apavorada: What a Thrill. My thumb instead of an onion.

The top quite gone except for a sort of a hinge!

Levaram-me para a enfermaria e puseram um curativo no meu dedo que sangrava sem parar. Como eu estava completamente histérica, administraram-me alguns calmantes.

Quando me acalmei, levaram-me para a sala de jantar onde todos já ceavam. De repente olhei para o chão, vi o tapete e, delirando, disse: Little pilgrim, the Indian’s axed your scalp. Your turkey wattle carpet rolls straight from the heart. I step on it, clutching my bottle of pink fizz. Na verdade, eu não carregava garrafa nenhuma, mas um amontoado de gaze.

Meus delírios continuaram; e ao me perguntarem se sabia onde estava, respondi de forma desconectada: A celebration, this is. Out of a gap a million soldiers run, redcoats, every one.

Anos mais tarde, descobri por acaso que as minhas frases natalinas tinham virado um poema intitulado Cut e que fora assinado por Sylvia Plath. Inconfiável!, pensei; nunca me contou nada nem dedicou o poema para mim, mas sim para uma tal de Susan O’Neill Roe. Como ela pôde fazer isso, logo comigo, que compartilhava todas as minhas poesias com ela.

Fiquei tão deprimida com essa história que precisei voltar para uma clínica de repouso, de onde nunca mais saí.