O monumento oco

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— Há muitos anos visitei com a família (meu filho e minha mulher) uma cidadezinha de Alberta no Canadá; — nevava muito quando entramos no Museu de História Local.

— Lá dentro busquei quase imediatamente a sala dos totem poles e quando caminhei seguido por meu filho e por minha mulher entre esculturas em madeira dispostas em filas ao longo de uma vasta sala precariamente iluminada fiquei deslumbrado e estaquei; — meu filho então me empurrou rindo para a frente.

— Duas ou três esculturas tocavam o teto mas não estavam pousadas no chão; — pairavam no ar um pouco afastadas da parede e podia-se passar por baixo delas para apreciar o seu interior que era oco e escuro; — os outros monumentos estavam solidamente assentados no piso frio com as costas (na verdade eles não têm costas) fixadas na parede.

— Em pé sob um dos totens ergui o braço direito e tive a sensação de que com esse gesto eu completava o monumento oco que flutuava sobre a minha cabeça.

(Do livro O passo do totem, a ser publicado em 2018.)

SÉRGIO MEDEIROS é poeta, tradutor e ensaísta. Publicará em breve, ambos pela iluminuras, os livros A idolatria poética ou a febre de imagens (poemas em prosa) e As emas do general Stroessner (peça satírica).