Letras, números e leitura salteada

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A editora Iluminuras acabou de lançar Um livro fazer um livro de alfabetos e aniversários, de Gertrude Stein, traduzido por Dirce Waltrick do Amarante e Luci Collin, duas estudiosas da escritora modernista, de quem já fizeram, em conjunto, a versão das peças mais radicais.

O livro que comentarei está estruturado sobre a sequência das letras do alfabeto. Isso quer dizer que o leitor pode escolher aleatoriamente uma letra e começar a ler o livro a partir dela, fazendo caminhos imprevistos; pode manusear o livro ludicamente, indo para a frente ou para trás, sem correr o risco de se confundir (muito pelo contrário!) e de usufruir menos a escrita sedutora de Stein, que está no seu auge na presente obra, dedicada ao público infantil, mas que o leitor adulto apreciará igualmente.

Aliás, é uma obra para pais e filhos, professores e alunos, para todos os leitores que apreciam a melhor literatura que une muita invenção a boa aventura. Mas não importa quem o leia, continua sendo o tipo de livro que, a meu ver, exige a leitura salteada, preconizada por Macedonio Fernández, o grande vanguardista argentino — só isso já revela a atualidade de “Um livro de alfabetos e aniversário”.  O título do livro dá uma dica importante para o leitor: nas suas páginas a autora fala de duas coisas aparentemente não relacionadas logicamente, alfabetos e aniversários.

Alfabeto é uma sequência de letras; aniversário, uma sequência de números (datas, idades…). Mas as coisas podem estar mais ligadas entre si do que se imagina, neste livro rico de ecos e rimas. Vejamos uma letra, para ilustrar: W. Começa assim: “V é  V e W é W.” Uma sequência de “vv”, que logo se juntam e se transformam em “w”.

Essa letra W, fruto da mutação da anterior, obriga o leitor, nesta parte do livro, a fazer uma leitura mais atenta da sequência; ele descobrirá, então, que nem tudo é “gratuito” como parece… Acima de tudo, a letra mencionada traz à tona alguns nomes e sobrenomes: Wagner, Washington, William, Wanda…  Como se vê, uma sequência de pessoas, sobre as quais a autora começa a falar, fazendo, numa escrita às vezes despojada de vírgulas, retratos saborosos, no plano imagético e sonoro: “Wagner era franzino como um pino que desatino. Quando ele se enfiava num lugar ele também ficava preso.” Wagner é teimoso, como se vê, gosta de aventuras e logo descobre um bolo de aniversário, mas esse aniversário é de ninguém; talvez seja o bolo de um aniversariante cujo nome começa com “v” ou “x”, “z” ou “a”.

O leitor esperto sabe que deve procurar o aniversariante secreto nas páginas do livro, e isso aumento a sua excitação e o seu prazer. Ilustrado com velhas fotografias, o livro parece um álbum do século passado, época em que viveram os personagens deste livro, os quais, curiosamente, continuam vivos, pois as velas estão acesas sobre seus bolos de aniversário (ninguém pode apagá-las, afinal), mesmo que não seja aniversário deles.