Aprecie sem moderação…
… até o ultimo sobrevivente

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Eis que o manuscrito é achado e dispõe-se aos meus olhos curiosos. Vem transvestido de carta escondida implorando leitura como uma garrafa lançada ao mar e à sorte.
Uma carta à deriva.

É sabido, porém, que ela foi endereçada a uma mulher. E esta mulher, o autor sempre soube, seria eu. Destinada a mim que teria, portanto, a obrigação, entregue à recusa de meus maiores pudores, de torná-la pública por meio de um encontro cósmico a emprestar-me seu tom asperamente ressentido por saber-se, para sempre, presa feminine. Saber que acompanha o lançar-se ao abismo do canto das sereias e à felicidade em penetrar nos nossos mais íntimos mistérios. “Servidão privilegiada”, diria eu.

Respeitando sua escrita, transcrevo fielmente toda a letra impressa nessa carta a mim enviada para que o acesso se dê inclusive àqueles que não a merecem… Afinal, nunca lhe prometi fidelidade:

“Pierre Louÿs, sim, você sabe, sou eu! Sussurro para você, minha querida, o mistério do que virá a ser este livro após o desvelamento de mistérios maiores vinculados à minha escrita.
Poderia ser conhecido como um poeta chamado Pierre-Félix Louis que nasceu em 1870, na cidade belga Ghent, e cresceu em Paris para enfim se tornar amigo de outras celebridades da nata literária como André Gide ou Paul Valéry!
Mas não.

Há histórias e estórias… A mim, couberam outras mais interessantes. Acusado como um dos maiores plagiadores da minha era, resta-me lamentar, quase como um cristão, e perdoar-lhes… visto que não sabem o fazem. Escrevo como uma oração por aqueles que carecem de humor, que tomam uma masturbação como a maior das transgressões ou erubescem as bochechas e tapam os ouvidos diante da palavra buceta.

Certamente não leriam minhas putarias requintadas se não as atribuísse à bela amiga de Safo, Bilítis… Nada a dar-me mais credibilidade do que a fama de “estudioso e tradutor da antiguidade grega”, ou ainda, “maníaco por traços perdidos numa espécie de arqueólogo da linguagem”… não à toa, fui o primeiro a estudar e traduzir Meleagro. No mínimo, reconheçamos, trata-se de um excelente currículo!

Agora, já em 1926, disponho de um novo segredo. Adoro essa sensação de privação dada, como um presente, ao leitor. Adoro o mistério que surge ao não lhe contar tudo! Porém, como um bom perverso (diriam os psicanalistas da tua época) deixo rastros.

Aqueles que, como você, gostam de restos que, diante de uma boa dose de libido, tornam-se excessos, saberão a identidade deste sujeito que se aventurou num universo reinado pelas mulheres…

“Minhas mulheres”, posso chamá-las assim exclusivamente por lhes nomear no momento em que me torno seu maior escravo. Três filhas da mãe entrecruzam quatro rainhas. As três filhas somadas à, claro, mãe de todas. Uma mãe que funciona quase como uma mãe da horda… e, você sabe, mãe é mãe!, mãe não se mata… até porque mãe que é mãe não censura suas lindas filhinhas… ao contrário, aglomera-as e junta-se a elas no mais puro deleite de gozo e prazer. Alcooliza-se de seus próprios fluidos e nos ensina que sempre há espaço para mais um… afinal, dizem que coração de mãe é coisa grande.

Mãe como a Teresa é uma espécie de raridade. Uma puta mãe (ou mãe puta) sem igual!
Pierre Louÿs, sim, você sabe, sou eu o personagem “X” da questão.

Poderia te dizer que omito minha própria identidade por motivos de precaução. Mas não… não seria tão cuidadoso a esse ponto. Omito por puro prazer. Por puro jogo a me excitar diante de uma parcela mal-dita representada por um alvo! Atribuir-me ao “X” nada mais é do que me oferecer encore ao leitor. Como essas mensagens subliminares escondidas nas imagens para participar do sabor do sexo de cada leitura. Desfrutar do horror dessa experiência privilegiada que tive com essas mulheres mais uma vez, e uma vez mais, servindo-me de estranhos. Sem nome, você verá o quanto é sedutor e rápido que o leitor se torne, então, o alvo. Empresto-me a ele.

Verei, na surdina, o seu constrangimento diante das páginas… verei corar o mais despudorado voyeur… verei até onde ele suportará nossa experiência… até qual página ele irá sabendo que elas repetirão o que não pode ser dito e farão ver o interditado. Apesar de minhas súplicas não atendidas (felizmente não atendidas!), elas farão! Ah… como farão!
Mulheres que aprenderam com afinco e em família, como uma boa tradição, a arte da prostituição! Trepam umas com as outras e são capazes, inclusive, da procriação… numa espécie de acesso a raça mais pura das putas. Putas feitas de putas que escancaram seu mandato diante do objeto-homem.
Eis o universo mais libertino já visto por estes olhos nada inocentes. O Universo delas: seu mais precioso reinado!
Desfrute, minha querida! Deslize seu olhar errante por cima, embaixo… entre! Esfregue-se em minha experiência e eleve sua moral.
Aprecie sem moderação… até o ultimo sobrevivente.

Com prazer, sempre,
Pierre Louÿs”

Restos de corpo sobreviveram à leitura pela imersão em um mundo ao qual inexistem recalques e o suposto sexo frágil toma o controle da cena. Juntos, não suportamos apenas por suportar a expectativa do porvir. De- gustamos em nossa carne o fruir das soluções e o gosto do sexo daquele quarto.
Em seu seminário destinado ao gozo feminino, Encore, Lacan nos adverte com a frase “o corpo, ele devia deslumbrá-los mais” e articula o gozo a uma espécie de usufruto do corpo. As três filhas e a mãe parecem ter aprendido bem a lição. Não só em benefício próprio mas ao servir-se do outro como um objeto alugado ao seu próprio prazer. Excluí-lo da cena familiar faz não só de X mas de nós este objeto-fora-da-cena, sem significação, capaz de fazer girar sua máquina de devastação sexual.

Sim, acompanhamos sua espera ansiosa e angustiada ao também lançarmo-nos a pergunta sobre qual seria o limite da história. Não mais defendidos pelos mistérios do corpo, lançamo-nos em sua nudez. Qual seria o limite do nojo a causar tamanha libido e confirmar toda a teoria da sexualidade freudiana? Tornamo-nos plateia que sente e sofre psicopato- logicamente junto com os atores ao sermos convidados, a cada linha percorrida, ao avesso de nossa neurose jamais autorizada. A cada página desbravamos um pouco mais do excesso do moralismo de nossa vida cotidiana. Diante da ambiguidade do olhar e do convite à experiência, cabe-nos questionar quem vê e quem é visto.
Cenas cruas, desprovidas do requinte erótico da narrativa, levam-nos à perversão em sua categoria mais avassaladora. Ao desejo sem roupagem. Ao bicho que nos habita e enlouqueidamente trepa diante do cio de uma cadela ao qual supõe desinteresse.

Cenas cruas mostram-nos o sexo não só incestuoso como também sujo, denso e entrecortado por soluços e lágrimas a denunciar o transbordar da transgressão consentida.
Cenas cruas mostram-nos o corpo desfalecido pelo exagero e ressuscitado pelo desejo mais indesejado da moral.
Sim, Pierre Louÿs, este escrito nos exige mais do que olhos… exige deslumbramento de corpos. Corpos que se entrelaçam na leitura nos convocando em nossos recalques que se alternam com sabores e cheiros excitantes numa báscula que a cada página lança-nos novamente na pergunta sobre a continuidade do texto. Numa espécie de mola propulsora a fim de atingir nosso ponto mais podremente fúnebre contra, claro, nossa vontade.
Sim, Pierre Louÿs, ficamos à deriva… destas palavras que não podiam ser lidas. Da cena transfigurada por sua obscenidade sem saber se haveria digestão ou gozo ou corpo ou tesão suficientes para sobrevivermos à tua aventura que foi também nossa.

“Felizmente para nossa saúde, mas para um golpe fatal no meio de nosso prazer, esta experiência foi rompida alguns dias mais tarde.”

[…suspiro].