Quando entrevistei Virginia Woolf

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     Depois de ter trocado cartas durante anos com Virginia Woolf, fui convidada, numa das minhas idas à Inglaterra, a tomar chá com ela. Aproveitaria a ocasião para entrevistá-la para um jornal universitário que coedito com dois outros colegas. Já havia proposto publicar, nesse jornal, suas cartas como ficção, mas ela se negou e reagiu veementemente: “Por que mentir, por que colocar no plano literário algo que é o grito da vida mesmo?…” Acho que quem disse essa frase foi Antonin Artaud para o editor de La Nouvelle Revue Française. Sei lá, de qualquer forma as cartas dela não foram publicadas; mas isso não vem ao caso.

     O que de fato interessa é que, num sábado à tarde, estava num café em Cambridge, diante de Virginia. Na época, ela estudava no Trinity College, pesquisava literatura brasileira, mais especificamente a poesia de Qorpo-Santo.

     Depois de uma breve conversa introdutória, com direito a reapresentações nossas e comentários sobre as cartas que trocamos, comecei a entrevista. Tão logo terminei a primeira pergunta – “Seus contos são influenciados pelos contos de Katherine Mansfield?” –, percebi que Virginia se pôs reflexiva, olhando atentamente para um ponto fixo como se buscasse as palavras corretas para me responder. Era uma pergunta capciosa, sabia da relação de amor e ódio entre as duas.

     Um tempo considerável se passou e ela permanecia imóvel, olhos vidrados num ponto qualquer da parede branca diante dela. Sou entrevistadora ardilosa, como todas deveriam ser, consegui deixar a grande Virginia Woolf sem palavras.

     O silêncio seguia e me indaguei se deveria partir para o próximo questionamento e pôr reticências como resposta à primeira pergunta. Mal tive tempo de concluir o que fazer e Virginia, olhando fixo para a parede, me disse: “A marca na parede é realmente – o que devo dizer? – a cabeça de um prego velho gigantesco, cravado ali há uns duzentos anos, que agora, graças ao paciente atrito de muitas gerações de criadas, mostrou sua cabeça para além das demãos de tinta, e está tendo sua primeira visão da vida moderna no espetáculo de uma sala de parede branca iluminada pelo fogo… Querida, preciso ir embora, falemos mais tarde”. Olhei para trás, para a tal parede, tentando encontrar uma explicação e, realmente, vi um pontinho marrom nela, nada demais… talvez um pernilongo tenha sido abatido ali, nada demais…

     Não voltei a me encontrar com Virginia Woolf, mas aquela frase que ela me disse tenho hoje certeza de que a li num de seus contos.