Quando entrevistei Nuno Ramos

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      Era um inverno frio. Cheguei na casa de Nuno Ramos às dez horas da manhã, iria entrevistá-lo para um jornal local, no qual eu colaborava como free-lancer.

       Naquela época, anos 1980, Nuno morava num bairro tranquilo da zona sul de São Paulo.

      O táxi me deixou diante de sua casa, que tinha uma porta totalmente branca, com uma frase escrita num outro tom de branco e em letras calibri light: “a sala inteira é a passagem”. Fiquei um tempo olhando aquela porta. Não parecia a porta da casa de Nuno Ramos, era limpa demais, despojada demais para um artista ultrabarroco. Aquela porta, com uma brancura à moda de Yves Klein, não combinava com a porta da casa de Nuno Ramos. Certamente, não era a casa dele.

Ainda assim, resolvi tocar a campainha, mas não havia campainha, só aquela 
porta com a sua brancura blanchotiana. “Será que eu devo bater à porta? Ou será que essa porta é uma espécie de obra, … um ready-made?”, pensei. O fato é que os objetos, depois de adquirirem o status de obra de arte, ganham uma aura que os protegem e os afastam do ser humano, de modo que não tive coragem de bater àquela porta.

       Bati palmas! Ninguém apareceu! Olhei ao redor e vi, no meio do gramado, uns tijolos agrupados no chão, uma coisa meio Carl Andre: “Nuno não é minimalista. Por que Carl Andre estaria em seu jardim?”, me indaguei. Rapidamente concluí: “Não deve ser a casa de Nuno Ramos”.

       Bati mais palmas, dessa vez palmas enérgicas! Ninguém! Não podia desistir da entrevista assim. Dei uma volta ao redor da casa, parecia abandonada, as janelas cobertas de poeira lembravam uma frase do Nuno que li não sei onde: “Há uma camada de poeira que recobre as coisas, protegendo-as de nós”. “É, pode ser a casa de Nuno Ramos”, reconsiderei, “e a poeira na janela é uma pista deixada pelo artista que significa que ele não quer visitas”. Mas o que significava a frase em calibri light na porta: “a sala inteira é uma passagem”?

       Fiquei ali um tempo, tentando decifrar o enigma; como não consegui, fui embora, não sem antes escrever numa das janelas empoeiradas: “Quando puder, me liga – 9999-99772”.