Yves Klein e eu

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Para o Sérgio, fã de Yves Klein

     Meu sonho era desfilar para Coco Chanel, embora tivesse sido convidada para desfilar para Balenciaga, de quem era amiga de longa data.

     Assim que pus os pés em Paris fui direto ao ateliê de Coco Chanel deixar o meu portfólio; e não tardou para eu ser chamada para a prova de roupas de um desfile da nova coleção outono/inverno. Tudo corria bem… até eu vestir uma calça preta com riscas brancas, que cismava em não passar no meu culote; só passou depois que abri
nela um rasgão de dez centímetros. Não foi dessa vez que debutei nas passarelas francesas!

     Mas meu destino como modelo estava selado e, num domingo à tarde, li no Le Figaro que um artista novato precisava de modelos. Me candidatei e no outro dia estava
no ateliê de Yves Klein, que logo descobri não ser um estilista, mas um artista plástico. 

     “Dispa-se”, Yves me disse. “Ufa”, suspirei, pois tirar a calça me parecia mais fácil do que colocá-la, principalmente depois do ocorrido no ateliê de Mademoiselle Chanel.

     Totalmente nua, besuntada de tinta azul, Yves me fez correr de um lado para o outro, fazendo-me tocar sobre uma grande tela; às vezes, ele me puxava, às vezes eu me movimentava sozinha.

     Minhas formas criavam antropometrias inusitadas. Outras vezes, eu simplesmente imprimia meu corpo nas telas ao som de uma orquestra ao vivo, diante de um público entusiasta. Em plena sintonia, Yves e eu trabalhamos juntos durante muito tempo.

     Naquela época, o artista estava obcecado pela cor azul. Quando decidi voltar ao Brasil, ele me presenteou com uma tela na cor amarante: era uma cor meio vermelha, meio rosa… muito feminina.

     No Brasil, tocada ainda pelo contato com o grande artista francês, decidi fazer uma performance em sua homenagem. Bastou eu me jogar nua sobre uma tela, ao som de um atabaque, em pleno Museu da Primavera, em São Paulo, para me levarem presa.

     Na cela, sobre a minha cama, estendi a obra em amarante do querido Yves Klein…, uma bela lembrança de Paris.

Dirce Waltrick do Amarante