A dentadura de Edgar Allan Poe

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A Biblioteca Pública de Boston organizava no final de cada ano uma festinha de confraternização para seus funcionários. Era a primeira festa de que eu iria participar desde que me tornara chefe da seção de achados e perdidos; seção, aliás, bastante concorrida, uma das mais agitadas de toda a Biblioteca, de modo que minha responsabilidade era imensa.

Nunca fui de beber e, naquela noite festiva, passei a água e a tortilha sabor queijo coalho. Apesar da minha abstinência alcoólica, saí completamente zonza da confraternização. Lá pelas 5 horas da manhã, vomitava sobre a neve acumulada na calçada. Vomitei tanto que, cansada, resolvi me sentar no chão. Ao meu lado, havia uma outra figura quase tão arruinada quanto eu: “Que noite, hein?”, disse-lhe. Ele me olhou e sorriu, seus dentes brilharam na rua estreita e escura de Boston. Pareciam os dentes da minha tia Berenice, que meu primo guardava numa caixinha de plástico desde a sua última partida no campeonato de tênis de Viamão, no interior do Rio Grande do Sul, para lhe fazer uma dentadura nova. O fato é que me deu uma vontade incontrolável de arrancar todos os dentes daquele homem e levá-los comigo para o Brasil, numa caixinha de plástico: daria um belo colar, ou colares, que venderia nas praias de Santa Catarina no verão.

Ele parou de rir. Parecia querer me dizer alguma coisa, mas sua língua se movia incontrolável de um lado para o outro como se ele estivesse tendo uma convulsão: “Annabel Lee, where are you?”, foi o que consegui apreender. Em seguida, virou os olhos para cima e aquietou-se. Não fosse pelo seu coração batendo em alto e bom som, acharia que já estivesse morto.

Ainda me lembro — foi num glacial dezembro — que isso aconteceu, mas para ser sincera, não sei se aconteceu mesmo; acordei no meio da tarde, no meio da rua e no meio do meu expediente. Nem sinal do estranho! Ao meu lado, lambendo o meu vômito na calçada, um gato amarelo manco de uma das patas.