E não sobrou nenhum caderno de cultura*

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Lembro bem de Agatha Christie, de quando trabalhamos juntas num caderno de cultura de um jornal local lá pelos anos 1970. Nosso trabalho ia muito bem, mas um dos diretores do jornal decidiu acabar com o caderno sob a alegação de que o periódico precisava de mais espaço para as colunas sociais e para as páginas policiais; na verdade, ele achava mesmo que os artistas eram um “bando de gente esquisita tentando fazer arte numa ilha de sol e mar”.

Agatha aceitou trabalhar nas páginas policias, pois não podia perder o emprego naquele momento, com tantas dívidas a pagar: o aluguel de um chalé no Pântano do Sul, a prestação de uma geladeira, o financiamento do Fiat Uno etc.

Acontece que ela não gostava nem um pouco de sair da redação para ir atrás das matérias. E isso ela tinha que fazer, pois além do texto, tinha que tirar as fotos para ilustrar seu conteúdo. Logo na primeira semana, cobriu um afogamento nas areias das dunas do Santinho, e ao lado do afogado havia uma garrafa de Campari. Segundo o laudo, o afogado estava completamente bêbado: “O homem confundiu as dunas com o mar, foi dar um mergulho e deu no que deu… morreu com a cabeça enfiada na areia”.

Depois de ter passado mais de seis horas nas dunas, fotografando tudo e entrevistando testemunhas, Agatha teve uma insolação. Passou uma semana com febre e dores no corpo, e decidiu, por fim, que da redação não arredaria mais o pé.

Como as notícias não chegavam a ela, decidiu criá-las. Sua primeira “matéria” nessa nova fase descrevia a viagem de um grupo de amigos argentinos à Ilha que terminou com o assassinato de todos. Cada dia morria um, eram entre oito e dez, de modo que a história lhe rendeu assunto para mais de um mês. “E não sobrou nenhum”, foi a manchete da última matéria sobre o caso. O jornal vendeu como água. Todo mundo queria saber o desfecho daquele estranho caso ocorrido justo aqui na Ilha da Magia.

Outra “matéria” policial foi sobre um corpo encontrado na biblioteca da casa de um professor de literatura aposentado. Como não havia Google e ninguém nunca checava a veracidade das informações, essas histórias se tornavam fatos e os jornais sumiam das bancas em poucas horas.

Depois de alguns anos escrevendo para as páginas policiais, Agatha se deu conta de que suas histórias agradavam o povo. Nessa época, já tinha conseguido pagar todas as prestações do Fiat Uno e da geladeira. Decidiu, então, vender os dois e com o dinheiro comprou passagem de volta para a Inglaterra, sua Terra Natal. Lá, readaptou os casos narrados no jornal catarinense. Muitos deles foram publicados em livros e viraram até filme e peças de teatro.

Me arrependo de não ter aceitado trabalhar nas páginas policiais. Na época, decidi ficar com as colunas sociais e, afinal das contas, também escrevi alguns livros, como A gastronomia nos meses de verão e Entre uma praia e outra, mas não vendem nem um terço dos títulos da Agatha, e por isso continuo pagando aluguel e o financiamento do meu Ford K.

 

Dirce Waltrick do Amarante**

*Este texto integrará o livro de contos Cem encontros, no qual a narradora descreve seus contatos com várias personalidades do presente e do passado.
** Escritora, ensaísta e tradutora. Organizou e traduziu, entre outros, Finnegans Wake (por um fio), Iluminuras.