Exílio

recorte3

Um pássaro prova abrir
a porta do poema,
a palavra lhe tosse
um cárcere.
Notícias se espalham,
é escasso o ar no mundo,
semanas suspensas empilham-se
sobre o frio útero de generosas covas.
A criança imita o pássaro,
teima abrir a porta de casa
porém trancas muros máscaras
a recontar seu mundo.
O carteiro passou ontem antes da chuva,
não houve cartas,
comeu bolo do lado de fora
foi embora sem saber se volta.

A TV anuncia,
avistaram esfinges no céu do Recife
acharam vértebras do vizinho sumido em 1965
está vazia a Capela Sistina
a polícia insiste em suicídio.
A flor invisível avança
rumo a mapas distantes
esmagando o peito dos homens
com suas tranças de estanho.
As notícias replicam,
mais um naco de ar desaparecido
e no meio da canção de domingo
abriram hospícios e presídios.
Anoitece e reflito:
para quem esses fogos de artifício
se os abraços estão todos proibidos?

A flor invisível
tece fetos de cristal
enquanto admiro estrelas fortuitas
e penso calado no que há:
minha amiga insone na cidade vazia
o livro ébrio no criado-mudo
as romãs apodrecendo no escuro
um castelo cheio de uivos
um horizonte obscuro por caminhar.
No Oriente
tomam a temperatura dos gritos,
houve briga quando descobriram
uma nesga de fôlego num precipício.
No rádio escuto:
cortinas cobrem o palco das faces de outrora,
agora os olhos sem vida
os olhos mudos de sonhos
os olhos plenos de sombras
secam
cerimoniosamente sós.

Aqui chegamos.
Nossas pálpebras exilaram-se
nas cores do sétimo dia.
A palavra perdeu-se no labirinto.
O sino tombou de véspera,
não houve velório ou missa.
A infância não foi tanta.
De tudo restou um pouco de ar
uns poucos amigos
um pouco deste Sísifo tísico.
Em alguns anos não sei se enviarei ao amigo outro poema.
No chão, no chão.
Estamos de joelhos diante do chão
e sequer conseguimos sonhar.
O cadafalso irremediável do medo
ampliou invisivelmente seus feudos,
o quarto se sufoca em tédios,
mas que importa quanto ar resta?
Perca um pouco a cada dia,
entoa a poeta noutro século.
Assim se gesta um desterro.

Uns acham a flor perfeita
outros dão-na por abjeta,
haverá debate online na terça
para resolver o desconcerto.
Em todo o planeta
ecoam excursões aos infernos,
uma criança morreu de fome
há dois segundos
e o repórter a dizer
que em Serra Leoa
a primavera é turva.
O medo é tão denso, dá pra pegar com a mão,
conta o coveiro na entrevista.
E os peixes, ainda respiram seu éter
antes de partir?

A nova flor do milênio
planta na flor
a filha da própria flor
e dà à luz um cântaro de flores,
assim reina a flor:
cresce em desertos
brota de flores e tetos
brota de nós
habita nossos corpos roucos
espraia suas pétalas
seu pólen
suas bençãos
suas vestes
sua sede
sobre nós
até sermos todos
um só, uma só
infinita e gélida flor.

Mais tarde,
quando as preces cessarem,
nos ensinarão:
foi só uma flor.
Foi mais uma flor,
era uma flor,
houve uma flor?,
cuspirão mais adiante.
Enxergaremos então o silêncio?
As notícias resistem:
ainda chove em Minas, uma rês pariu no curral do Aristides, o galo cantou esta manhã,
um jovem se apaixonou pela prima, crê que valeu a pena e o ônibus saiu quase no horário.
Mas agora
espere, preste atenção:
batem à porta.
Sim, é certo,
batem à porta.
Parecem vozes do outro lado do poema.
Encontraremos a chave?
R.F. Franco*
Maio de 2020

*Poeta, publicou, pela Editora Iluminuras, os livros Nossas pálpebras (2010), Casas Geraes (2016) e quando as cores do sétimo dia (2018).