Flagelo

recorte1

respire fundo
o vizinho me diz que não acredita em insônia
faço cara de clorofórmio
quem mandou descuidar?
ela resistirá
não há espaço nem na amoreira
o carteiro está à porta
estacionaram o OVNI muito na esquina
fecharam os bordéis ontem
uma nova ordem
tente formicida, há indícios
parece que piorou
volta aqui menino
veneno para rato, cuidado
que almazinha mais quadrada
delícia de asinha
ciclistas todos sem capacete
comida é arte
não tenho paciência
passa hoje, ontem não posso
fala sério, nasceu?
saiu o resultado da sentença
levantem-se, tentamos de tudo
precisa mesmo de poeta?
sinto muito
todos liquidados, mantenham a calma, não dá, então desespero com moderação
assim não dá mesmo pra escutar o poema
me ajuda por favor, pêsames a quem
ah, se os lábios fossem lá…
um cafezinho em 2023?
acreditava em anjos somente quando ingeria morangos
agora não
profissão: eremita
Jesus!
fecha as cortinas
bebi muito
que histeria interessante
não há cortina
não há piscina
desliga o ar
desliga a piscina
é tudo muito novo
desliga a cortina
corrimão latrina buzina vacina
se fosse rima seria uma pulsão
desliga eu
desligo-me
desliga mim
desligando
desligado, câmbio
me deixa assim na rotina
adoro Paris
desliga logo o blog todo
é só se reinventar
cozinha a cortina
quem tem medo do lobo mau?
foi mal, não quis dizer cadafalso
goela abaixo:
ca-da-fal-so
cada-falso
cadê fausto
puta cara falso
cara de falso
esquece
veredas veredas veredas
nunca gostei de gatos e ainda deram para transar nas escadarias da catedral
martírio léxico, deixai-nos ferver
quero as sementes do mal
as serpentes do sal
as flores do tal
estou triste, leio no messenger
é difícil é difícil é complexo
por que não me calo?
é estúpido é triplica é flagelo
é replica é cansaço é amarelo
é implica é triste é castelo
é resiste
é triste e basta
martelo martelo bigorna flagelo
vamos com o astronauta soltar pipa
tem que acordar cedo porém
não é pergunta é asneira, desinfeta
desinfeta desinfecta desesteta
lá de cima será tudo mais
adeus regras
poético estético babaca honesto
aqui de baixo não será
sei não
saiu o resultado mesmo?
sei sim, meio violeta, taça de cristal careta
caneteia lapiseira ofendeu a página
que horror
curtiu?
erra erra erra
só não pode coçar o nariz
perde muito ponto
vick vaporub, lembra?
diga 33
não resolve
dissolve a cápsula em cádmio
o despertador não tocou entretanto emagreci
suspendam impostos lareiras letreiros
respire fundo
tão pequenino, estragão
rúcula almeirão alpiste
você tem tempo
vira senão queima
pequenino, estragão
couve almeirão estupro
há dez ratos para cada habitante
miolo mole
abrirão o útero quando?
novo recorde
mortes incertas, tão poético
útero urro murro
tudu u mundu surdu
sardinhas cruas
alguém aí enxerga
leito 11 é spp
tchau bom plantão
orquídea aspirina grão-vizir
doutor, parou!
respire fundo
respire raso
respire
pire
100!
piiiiiin
200!
piiiiiin
300!
piiiiiin
3 aves marias igual número de sonhos
roedores excelsos rogai por nós
próximo!
respire fundo
raso
a água escorre
o inverno está vindo
voltei nem tanto
que aconchegante
precipício mais chique
você não vai sentir nada
posso estacionar aqui?

R.F. Franco*
Maio de 2020

*Poeta, publicou, pela Editora Iluminuras, os livros Nossas pálpebras (2010), Casas Geraes (2016) e quando as cores do sétimo dia (2018).