FALAR DE religião tornou-se uma ocupação gravíssima nos últimos tempos, o que não é descabido. Mas um lançamento da editora Iluminuras, na coleção Pólen, traz uma brisa de humor e fantasia ao tema.
Trata-se de "Os Deuses no Exílio", que o poeta alemão Heinrich Heine (1797-1856) escreveu nos seus últimos anos de vida, em Paris.
Essa prosa levíssima, em que se trançam lendas medievais, comentários contemporâneos e personagens extravagantes, foi publicada primeiro em francês, na apropriada data de 1º abril de 1853; veio depois uma versão em alemão.
Os tradutores dão conta das duas versões, e o volume da Iluminuras inclui, além de dois excelentes ensaios críticos, textos de Théophile Gautier e Eça de Queiroz, inspirados na obra de Heine.
A "teoria" do poeta, ao mesmo tempo cômica e melancólica, perde um pouco se apresentada bruscamente, mas aqui vai. Os antigos deuses da Grécia, na verdade, existiram de fato. Vivem escondidos até hoje, nos mais variados disfarces e nas mais humildes ocupações.
Ao lado de uma cabra velhíssima e de uma águia depenada, Júpiter se arrasta caçando coelhos numa ilhota do mar do Norte. Marte, o deus da guerra, foi visto servindo como lansquenete nas tropas de um general alemão.