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  Poesia Brasileira
Curare
Ricardo Corona

DADOS TÉCNICOS:
16X23cm | 176 páginas
ISBN: 978-85-7321-363-8

Situação:Normal

R$42,00

Entxeiwi. Com essa expressão, que se avizinha a “bom-dia”, Tikuein – apelido de José Luciano da Silva – ou Nhangoray (Mão Pelada), seu nome indígena, falecido em 2009 e um dos últimos falantes da língua Xetá, iniciava uma conversa com o espelho.

Um rito oral com o outro do espelho que podemos dizer um exercício-limite, sintoma do desaparecimento dessa língua – do grupo dialetal guarani, no caso o mbyá, bem como outras da família linguística tupi-guarani – e efeito da dizimação da diversidade cultural a-histórica. Os Xetá, desde o início dos primeiros contatos, em fins do século XIX, ficaram reduzidos a seis indivíduos remanescentes.

A soma dos indivíduos é menor que o número de nomes atribuídos à coletividade: Xetá, Héta, Aré, Botocudo, Sjeta, Notobotocudo, Ssetá, Bugre, Yvaparé, Chetá e Seta. São onze nomes coletivos para seis indivíduos que atualmente não convivem coletivamente.

Poucos meses após ter decidido que o informe desta fala de Nhangoray seria a pulsão do poema, tive a alegria de encontrar-me com Jerome Rothenberg, em Curitiba, em meados de 2007. Em rápidos três dias de convivência, o poeta e tradutor estadunidense, criador do conceito etnopoesia, deixou-me sinais estáveis de que a poesia é presença e ruído de fundo nas diversas relações culturais. “Nenhuma pessoa hoje é recém-nascida.

Nenhuma pessoa se acomodou apaticamente aos milhares de anos de sua história. Meça tudo pelo foguete Titan & pelo rádio transistor, & o mundo estará cheio de povos primitivos. Mas mude por uma vez a unidade de valor para o poema ou para o evento da dança ou do sonho (todas, claramente, situações artefatadas) & fica aparente o que todas estas pessoas têm feito todos esses anos com todo esse tempo nas mãos”, escreveu Rothenberg em “Pré- Face - Technicians of the Sacred” (Etnopoesia no milênio).

Este informe do rito oral de Nhangoray é presença extremosa em Curare desde as primeiras linhas e põe em ênfase as relações entre poesia e etnia. A medida é monstruosa – do informe ao disforme, e, estendidamente, às linhas de fuga que sugerem ao poema o aberto –, um modo de se chegar ao ethos poético ou a uma poética.

Posso dizer, além disso, que, recentemente, com a elaboração e exposição de uma etnoperformance chamada Carretel curare é que esse ethos delineou-se em seu movimento de retorno. O informe da fala de Nhangoray, presença na minha escrita-cosmogonia, escrita monstruosa, retorna à oralidade via espaço da performance.

Curare opera mais por uma força centrífuga do que centrípeta e descentra para não decifrar.

“Não há mais sujeito-objeto, mas ‘brecha escancarada’ entre um e outro e, na brecha, o sujeito, o objeto são dissolvidos, há passagem, comunicação, mas não de um a outro: um e outro perderam a existência distinta” (Bataille).

Assim, a expressão “entxeiwi/bom-dia”, pode ser uma variante livre do sentido “carpe diem” (Horácio), vulgarmente traduzido por “viver o dia”. Se o gesto “carpe diem” busca dizer o que se esgota no instante presente, uma expressão para o “viver o agora”, dizer “entxeiwi” ao espelho, em uma língua esquecida, pode nos abrir o sentido poético desta língua, sentido este que está em todas as línguas, momento em que não estão formalmente estruturadas como linguagens de poder (Blanchot).

É neste lugar, lugar também da tradução, que não é começo nem fim, lugar olvidado, silencioso, lugar de ausência que Curare – “brecha escancarada” – se relaciona incessantemente.

E se recorro ao carpe diem, antes de evocá-lo formalmente, um épico, procuro dizê- lo no sentido que a expressão “entxeiwi” se me apresenta, ou seja, lugar de potência que tanto necessita o poema que não quer nunca se acabar, que é “continuum de variações crescentes”, nas palavras de Arturo Carrera, em seu Noche y Día.

Ricardo Corona

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