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  Poesia Brasileira
CICATRIZ DE MARILYN MONROE, A
Contador Borges

DADOS TÉCNICOS:
14x21cm | 96 páginas
ISBN: 978-85-7321-372-0

Situação:Esgotado



Quem sabe deus conheça um gozo impossível, só dele, algo eloquente e sem nome, diluído em dor como um soro.

Não tolero as divisas que os limites ostentam.

Tenho a hipérbole afiada como um machado que sangra.

Morrerei feliz, por favor, não chore.

Encha a taça dos olhos e celebre a passagem do século.

Morrerei feliz e distante quando passar o ciclone.

O OLHAR DO FOTÓGRAFO,
O OLHAR DO POETA

Nascida Norma Jeane, Marilyn Monroe tinha lampejos como: “Primeiro preciso convencer a mim mesma de que sou uma pessoa. Depois talvez me convença de que sou uma atriz”.

É imediato associar tal inquietação à ironia de um Álvaro de Campos: “Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti e perdi-me”, ou à de um Bernardo Soares: “Sonhar é muito mais prático que viver”.

Fernando Pessoa é talvez quem esteja mais à mão, mas poderíamos pensar em vários outros poetas, artistas e pensadores com os quais Marilyn dialoga, de Nietzsche a Deleuze, todos empenhados em estabelecer o limite entre norma e exceção, verdade e mentira – a vertiginosa perquirição da identidade em crise.

Tal é o entrecho do poema dramático A cicatriz de Marilyn Monroe, longo monólogo em que Marilyn divide a cena com seu duplo, Norma (ou seria o contrário?), enquanto aguarda a chegada do fotógrafo da Vogue.

Enquanto espera, Marilyn mergulha fundo em si mesma, disposta a se revelar por inteiro, e diz, brincalhona e fatal, ao fantasma do fotógrafo: “Vamos ver se você segura o tranco, se é bom de câmara, / se a alma não sai pela boca quando eu ficar bem perto, / à queima-roupa, e abrir os olhos / para além da metáfora de florir”.

Mirando-se no espelho, Norma reconhece: “Perdi a vida por amar o disfarce”. Mas imediatamente em seguida, na mesma frase, Marilyn retruca: “o artifício é o dom / dos que não se contentam com pouco e cavalgam alheios / no pelo lustroso da Ursa Maior”.

Para retardar o instante da revelação, cada cena é antecedida do seu respectivo “plano” – voz neutra de um narrador que, à semelhança do coro na tragédia grega, convida o leitor a acompanhar de perto o drama do ser que sabe: a mentira não existe; mentir é só uma forma de dizer a verdade.

Em suma, poesia da melhor qualidade, amorosamente extraída de um dos mitos do nosso tempo, essa fulgurante Marilyn Monroe/Norma Jeane, que enquanto aguarda o fotógrafo da Vogue é flagrada pelo olhar inquieto do poeta Contador Borges.

Carlos Felipe Moisés

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