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  Literatura Brasileira/Portuguesa
A estética da indiferença
Sidney Rocha

DADOS TÉCNICOS:
13,5x22,5cm | 246 páginas
ISBN: 978-85-7321-597-7

Situação:Lançamento



Ladies and gentlemen, se­nhoras e senhores, por favor, uma salva de palmas para o Homem mais Faminto do Mundo. E não se trata de festival de bizarrices. É filantropia de entidades e homens do bem. Mesmo que tal concurso nos remeta, de modo enviesado, ao conto “O artista da fome”, de Franz Kafka.

Calma, foi apenas o que a mente deste leitor mal-assom­brado captou por alguns se­gundos. Esqueça. Nada, nem mesmo a gincana famélica promovida pelo Rotary, Lyons e a maço­naria de Cromane altera o tom de aparente normalidade entre os condôminos do mundo gourmet. Talvez apenas sofram de um velho mal-estar, coisa banal por estas plagas de “verdades excessivas”: aporofobia – algo como ódio ou desprezo aos feios, sujos e malvados.

Em vez da ausência de senti­mentos controlada por um computador, para lembrar Al­­phaville, filme de Jean-Luc Godard (1965), temos a tibieza do olhar, o distanciamento ne­cessário, talvez sinal de sofisticação dos michis e hanas, altivos e protegidos habitantes de Amaravati, o lugar dos lu­gares.

“Desse jeito a vida segue, a nova engenharia da felicidade como um bom slogan”. É assim que se vive por aqui. Na dúvida, há o socorro de um personal.

O gosto duvidável e suspeito: “Esse Otávio, tenho difi­cul­dades em lhe dar trinta, ou qua­renta anos, ou consi­derá-lo alguém grã-fino e não somente kitsch. Tem o porte de ministro, a cabeça dois palmos distante do plexo. Talvez eu tenha visto nele a imponência fria dos ombudsmen dos noticiários, mas sua linguagem é clara. E pode não estar à altura de Franco, que é malabarista: quantas mais forem as garrafas de uísque mais invencível com as palavras se torna, porque in­consequente”.

O bom gosto. O cheiro de es­­nobismo exala nas frases e olhares dos personagens. Precisam firmar o discurso que ergue as guaritas dos condomínios. “Michi, entre. O mundo lá fora já não é conosco”, diz Hana. O pó de gesso maquia o planeta.

E há, sobretudo, a politização da ironia em Sidney Rocha. Politizar a ironia em tempos miseráveis – tempos de angu-de-caroço – é remodernizar a literatura, sem carecer de afetação ou mungangas de linguagem. A Estética da indiferença é Política em todos os sentidos: Sight, Hea­ring, Taste, Smell e Touch.

Segundo livro da trilogia “Geronimo”, A Estética da indiferença desassossega com seu trinado irô­nico e radicalmente político. A partir do tédio dos indiferentes, como na escrita de um Alberto Mo­ravia sobre a vida burguesa, Sidney Rocha nos entrega, livre da pena do escândalo da literatura hiper-realista brasileira, um livraço que desmantela a linguagem dos condôminos premium.

E não há, Hana, roteiro ou imaginação ao modo Madame Bovary que tire a maquiagem entediada do mundo. O rouge da aventura faz apenas corar diante da rotina dos lares, por mais confortáveis que sejam.

O Fernanflor do primeiro vo­lume, não se engane, segue à espreita, com a sua ideia de beleza e invenção. Cuidado. É malassombro permanente no juízo.

À espera da conclusão da trilogia de Rocha, faço um es­cambo desvantajoso no sebo de Geronimo. Resta um mantra mais ou menos misterioso: “Melhor que o ouro é a astúcia de consegui-lo”.

XICO SÁ

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