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domingo, 21 de março de 2010

Sexo seco

A primeira abertura que o texto de Sérgio Medeiros oferece, O sexo vegetal – como em seus livros anteriores, aliás –, diz respeito a sua natureza totalmente indistinta: narrativa cosmogônica? Reflexão crítica? Anotação antropológica? Crônica de viagens? Ou, com menor firmeza, é possível, em vão, multiplicar os termos: romance erótico? Fábula infantil? Etc? A ênfase do texto de apresentação, escrito por Myriam Ávila, está nisso, aliás: “Toda a obra de Sérgio Medeiros se pauta por uma total inadequação ao ‘horizonte de expectativa’ da crítica e do público em geral. Fazendo poesia sem poesia, teatro sem possibilidade de encenação, operetas incantáveis (...)”E ainda parece inútil – pois muito provisória – a tentativa de definição do livro segundo uma imagem, apenas: ou uma metáfora ou um procedimento. A narrativa, de fato – o livro é escrito praticamente inteiro em prosas curtas, possíveis começos –, dispara em várias direções. Ou melhor: em uma direção apenas, talvez – a estranha relação entre homem e natureza ou humano e inumano, que ganha, por sua vez, contornos variados – mas uma direção muito sinuosa, que pode se modificar, pois parece não ter controle sobre o próprio funcionamento. Sérgio Medeiros insiste mesmo na ideia de que seu texto, como peças à deriva, é pautado por uma movimentação incessante. Nisso consiste, diz, a própria mecânica do amor.Por exemplo: se é possível sugerir que a água é o elemento ou a textura mais recorrente da narrativa (leitura que permite, aliás, traçar uma linha de semelhança entre O sexo vegetal e Água viva, de Clarice Lispector, uma das escritoras citadas no livro), então, na sequência, de súbito, inúmeras folhas e galhos secos são espalhados pelas páginas. A matéria pode ser úmida, seca mesmo ou ainda volátil, já que muitas vezes o corpo vegetal transforma-se em fumaça, névoa, como no texto que fecha o livro, Epílogo: Kapoor, único escrito (mas não inteiramente) em versos: “O esqueleto da névoa / é como um... / vácuo longuíssimo / e, escurecendo, / se esconde no seu sopro alvo” (pág. 91)As peças soltas se diluem – e evaporam – antes de qualquer definição. O epílogo – falso, de algum modo, já que pode ser lido também como uma espécie de começo (é legítimo pensar, afinal, segundo a lógica do livro, que se trata de um prefácio) – parece a marca final disso: a narrativa acaba em névoas, indecisa. A impressão é que a narrativa está sempre tentando recomeçar. As peças, já que estão todas soltas, podem desaparecer para reaparecer em outros lugares, feito fantasmas. O prefácio também não é nada convencional, assim como as notas de rodapé. É toda uma relação controversa com as normas que um livro impõe.Mas talvez seus motivos sejam ainda poéticos – e é possível pensar, com Jean Luc-Nancy, que poesia é até mesmo aquilo que não poderá ser chamado de poesia. Existirá sempre a incisão de cortes, embora não exista exatamente uma tradição do verso – existirá uma imagem que, seja como for, se mantém informe, seca: “O casal se sentou diante das folhas secas. A velha sentou-se ao seu lado. O casal tinha trabalhado duro. A velha, não. Fazia calor. A velha matutava” (pág. 56). Nisso é possível sugerir certo diálogo entre os textos d’ O sexo vegetal e os desenhos do artista visual Fernando Lindote – que intitula uma de suas exposições justamente de Máquina Seca – presentes no livro como ilustração, mas também como espelho. É como se os desenhos de Lindote, que aparecem como pequenas sombras na folha, de repente, também estivessem se desintegrando – moles? Secos? – e talvez caindo.Há uma espécie de divisão do livro em duas dicções, e ambas se intercalam e em alguns momentos também se tocam. A primeira é mais seca, digamos, ou mais descritiva; a segunda, sempre intitulada Décor, em itálico, como se estivesse se apropriando de um já-dito, é mais úmida, metafórica – algo que Sérgio costuma chamar de linguagem do “como” – ou mesmo delirante: “o tronco tem muitas línguas finas e grossas, umas sobre as outras, lambem-se noite e dia, uma de repente se dobra e pende, como enfastiada, e seca aos poucos, cáqui.” (pág. 28)



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