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sábado, 22 de maio de 2010

O mal-estar na civilização romena

O volume Depressões foi o primeiro livro publicado por Herta Müller, em 1982. A autora, de origem romena e cultura alemã, foi a vencedora do prêmio Nobel de Literatura de 2009. Ele traz como rubrica a denominação "contos". No entanto, os textos aí reunidos dificilmente podem ser vistos como representantes típicos desse gênero tão caro à modernidade. Nele não encontramos ações, reviravoltas ou mesmo os agentes envolvidos em algum tipo de intriga. Antes, o que vemos são várias descrições de cenas passadas em uma aldeia romena de língua alemã. Essas cenas são descritas por uma menina ou por uma adolescente, quase sempre em primeira pessoa. Impossível, portanto, o leitor não identificar essa voz narradora com a da autora que assina o livro.A força destes fragmentos - melhor denominação do que contos - está na radicalidade da narração. Eles funcionam como blocos de realidade que flutuam diante do leitor e permitem a ele um olhar de voyeur na pequena comunidade. Praticamente não percebemos que saímos de um "conto" e iniciamos outro. O que dá título ao volume, o Depressões, ocupa mais da metade do livro. Outros, bem curtos, são pequenas peças de humor negro, como é o caso de O Banho Suábio. Em uma página lemos como uma família inteira toma banho, sucessivamente, em uma mesma água de banheira que aos poucos vai ficando fria e imunda. Esse texto é emblemático, porque trata justamente do encontro da "limpeza" com a "sujeira", um dos leitmotifs do livro.Os homens trabalham no campo, bebem e espancam suas mulheres. As mulheres limpam e são espancadas. Elas, por sua vez, espancam as crianças. Na comunidade ninguém é filho do homem a quem chama de pai. Com poucos adjetivos pinta-se a aridez da vida infantil. O olhar de criança se manifesta na intensidade das sensações corporais e no modo como a narradora revela o ser absurdo do mundo dos adultos. As sensações de calor, frio, os odores, a intimidade com os animais, que normalmente as crianças vivem de modo muito mais intenso, tudo converge na construção de um mundo ao mesmo tempo muito povoado de sensações e desprovido de felicidade. "Os cachorros arrastam suas barrigas pela grama e deixam pingar mijo morno nos caminhos." A família é o lugar do mal-estar. Freud, claro, explica.MÁRCIO SELIGMANN-SILVA É DOUTOR PELA UNIVERSIDADE LIVRE DE BERLIM, PÓS-DOUTOR POR YALE E PROFESSOR DE TEORIA LITERÁRIA NA UNICAMP. É AUTOR DE LER O LIVRO DO MUNDO (ILUMINURAS) E O LOCAL DA DIFERENÇA (EDITORA 34)



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