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sexta-feira, 19 de setembro de 2008

O êxtase de NUNO

Baudelaire, em Le Mauvais Vitrier, diz que existem homens de natureza contemplativa, em tudo resistentes à ação. Contudo, sob um impulso misterioso, são capazes de agir com insuspeitada crueldade. Ele mesmo, certo dia, acordou com o pé esquerdo, triste e "decidido a fazer qualquer coisa de grandiosa", praticar um ato que poderia condená-lo eternamente à danação, mas capaz de lhe conceder um infinito segundo de alegria. Escolheu como vítima um vidraceiro, que caminhava sob sua janela e ao qual fez subir seis lances de escada. No topo, após examinar sua frágil mercadoria, Baudelaire perguntou onde estavam os vidros coloridos. Como, então, ousava o pobre-diabo vender vidros sem cor num bairro pobre? "Onde está a beleza da vida?", perguntou, aos gritos, o poeta, empurrando o vidraceiro escada abaixo.Nuno Ramos conta essa história antes de começar a falar de Ó (Editora Iluminuras, 289 páginas, R$ 44), seu quarto e mais radical livro. Quem conhece seu trabalho visual não se espanta com a lembrança da parábola poética de Baudelaire. Só a título de ilustração, basta citar uma escultura como Craca, apresentada na Bienal de Veneza de 1995 e hoje exposta ao público, numa segunda versão (são três), no Jardim das Esculturas do Parque Ibirapuera. Nela, o corpo de um cão mistura-se à carcaça de um tatu, ao cérebro de um macaco e a peixes enterrados sob uma espessa camada de alumínio fundido, como se fossem os estilhaços do vidraceiro de Baudelaire. Estaria a beleza escondida a sete palmos de míopes mortais, incapazes de enxergá-la por trás do véu da morte? Ó não fornece uma resposta definitiva, mas é o mais belo, atrevido e desconcertante livro de Nuno Ramos.



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