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quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Nuno Ramos, e as inquietações de um criador grandioso

Há três meses, durante todos os dias, o artista Nuno Ramos está imerso em um galpão na zona norte de São Paulo realizando a obra que ele considera ser, tecnicamente, a mais difícil de sua carreira. Fruto Estranho, trabalho protagonista da mostra, de mesmo nome, que ele vai inaugurar em 14 de setembro no Museu de Arte Moderna do Rio, é a criação de uma imagem forte, desconcertante, monumental.Duas árvores têm, cada uma, carcaças de aviões monomotores da década de 1970 embrenhadas em seus galhos, formando dois conjuntos a serem cobertos por 4 toneladas de sabão. Ainda para completar, dos flamboyants saem tubos de ensaio de onde goteja soda cáustica (o "veneno" lido em poema do russo Alexander Pushkin) em contrabaixos transformados em pequenos poços de banha quente, abrindo, assim, espaço para mais saponificação. Somando tudo, são mais de 10 toneladas de obra, que na próxima semana, vai ser transportada em dois caminhões e três carretas para o Rio. Depois, serão mais 22 dias de montagem até a abertura da exposição."Esse trabalho tem uma força alegórica maior do que outras coisas que fiz", afirma o artista. "Parece uma espécie de acidente e tem opostos, uma coisa de movimento que parou. Me parece um pássaro que quer voar e por isso pus as asas dos aviões meio moles", ele continua. Já foi falado que Nuno Ramos está sempre à beira de um abismo por criar obras - geralmente, em grande escala - juntando elementos tão inesperados, imprevisíveis como vaselina, breu, areia socada, mármore, música, poesia e até animais.Em Fruto Estranho - título inspirado na música Strange Fruit de Billie Holiday sobre negros mortos e que será cantada em vídeo no local expositivo com cena do filme A Fonte da Donzela, de Ingmar Bergman - prevalece, mais do que a imagem de fusão árvore/avião (espécie de "cópula"), as toneladas de sabão que vão materializar de forma extraordinária aquela cena em branco puro. "Para ser menos óbvio, há algo mais intenso que o sabão carrega, uma espécie de ciclo entre morte e vida, sujo e limpo, uma coisa orgânica feita através de operação química", descreve o artista.Mais ainda, a mostra no MAM do Rio, com curadoria de Vanda Klabin, se completa com as obras Verme - formada por duas grandes esferas de areia socada de onde, por aberturas, saem a projeção de dois filmes, um com texto de Nuno encenado por atores da Companhia do Feijão e outro pornográfico misturando o gênero musical choro e sexo explícito - e Monólogo para Cachorro Morto, já exibida em Brasília. O investimento para a exposição, patrocinada pelo Bradesco Seguros, é de R$ 600 mil. Depois será lançado amplo catálogo.Político. Aos 50 anos, Nuno Ramos resiste a qualquer classificação e é considerado, indubitavelmente, um dos criadores mais inquietos do cenário contemporâneo brasileiro. Está sempre a se renovar, a dar um giro a cada trabalho -, mas colocando ao mesmo tempo o lado sombrio da vida evidente em suas obras. "Meu lance é opor, criar ressurreição entre extremos. Me identifico com uma vontade de totalização da vida, em que o carnaval possa incluir a Quarta-Feira de Cinzas", define. Árvores com aviões e sabão falam de vida e morte, assim como os urubus da obra Bandeira Branca, que Nuno vai exibir no espaço de maior destaque da 29.ª Bienal de São Paulo, a partir de 25 de setembro, remetem ao luto. Com duas atuais exposições de impacto e com o lançamento de dois livros (leia mais acima), este é, enfim, um momento especial na carreira do artista, iniciada na década de 1980.



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